A constante alta de preços de produtos na Argentina tem assustado, inclusive, brasileiros que moram no país vizinho. Desde dezembro do ano passado, quando o governo de Javier Milei decidiu pôr fim ao programa de subsídios para itens básicos de consumo, produtos que estavam sob esse regime tiveram aumentos de até 180%, segundo o jornal local El Clarín.

Dinheiro conversou com o consultor jurídico Matheus Lourenço Pinto Mota Santiago, que mora em Buenos Aires há um ano. Matheus tem 26 anos, nasceu em Recife (PE) e se mudou para capital argentina por conta da profissão.

Na sua percepção, a recente disparada dos preços na Argentina pegou até os próprios cidadãos do país desprevenidos. Mesmo aqueles que já estavam acostumados com a inflação. Só em 2023, a alta de preços no país ultrapassou a marca de 200%.

“Aconteceu muito rápido. O controle que o governo fazia sobre os preços era necessário, na minha avaliação. Fazia parte da vida cotidiana das pessoas, mesmo aquelas já acostumadas com a inflação. Creio que quase ninguém estava preparado para esse tipo de mudança”, explica.

Como consultor jurídico e parte da considerada classe média, Matheus foi um daqueles que teve de cortar itens que consumia por conta do aumento exponencial de preços. O que mais assustou o brasileiro foram os itens básicos.

“O preço de várias coisas disparou como, por exemplo, o preço do desodorante e do creme dental. Antes, uma marca conhecida de pasta para higiene dental custava algo em torno de 350 pesos e passou para 4 mil pesos. É um aumento muito significativo e que não tinha acontecido antes”, conta.

Outros itens que assustaram Matheus após a alta de preços foram o papel higiênico, considerado item básico, e o azeite, que antes do aumento fazia parte do dia dia da família argentina.

“Você não consegue mais achar um azeite por menos de 10 mil pesos. É um valor muito elevado. 10 mil pesos chega a ser o salário diário de muitas pessoas na argentina. Há um processo de dolarização dos custos dos produtos, mas a renda não acompanha a alta”, afirma.

Esse salto nos preços, segundo o jornal El Clarín, se deve a dois fatores: o fim da ajuda às empresas que fabricavam os produtos e o reajuste desses itens pela inflação, já que o valor das mercadorias estava subvalorizado. O objetivo é equiparar os valores das prateleiras dos supermercados aos dos mesmos produtos vendidos nas lojas chinesas ou nas de autosserviço, aonde os controles do governo nunca chegaram, afirmou o jornal.

Mudanças no hábito de consumo na Argentina

Na avaliação de Matheus, alguns hábitos de consumo devem ser alterados na argentina, como mencionado com o uso do azeite, antes habitual na mesa dos argentinos.

“Eu tinha o costume de comprar frutas todo dia pela manhã, além de alguns doces que você degusta com café. Esse tipo de produto eu tive que dosar nas compras. Sair para jantar ou comer fora também era algo mais natural e agora precisamos segurar esses gastos, torná-los menos frequentes”, conta.

Outra mudança está no consumo de energia. Matheus explica que o aumento nos preços de eletricidade levou até o metrô de Buenos Aires a desligar o ar condicionado de algumas composições e trens durante a operação.

Na casa dos argentinos, o uso do ar condicionado residencial também deve ser dosado, assim como o chuveiro elétrico e o próprio consumo de luz, já que também existe uma forte alta de preços nesse setor.

“Eu vejo as ruas menos movimentadas, principalmente as relacionadas ao comércio. Antes, as mesmas ruas eram bem mais movimentadas, e isso chama muito a atenção de quem já morava aqui antes do Milei assumir”, relata Matheus.

Para ele, os argentinos já estão sentindo os efeitos do governo Milei. Antes de eleito, o presidente argentino prometia combater os grandes salários de uma casta argentina. No entanto, ao assumir, combateu sindicatos e políticas de precificação, causando conflitos na rua e maior uso autoritários das forças argentinas.

“O autoritarismo me parece tão preocupante quanto a inflação. Pois o que percebo é que as pessoas têm certa restrição para falar de política e, principalmente, do governo de agora. Grupos têm que avisar ao governo quando farão protestos, não pode nem se reunir para manifestar sua insatisfação que o autoritarismo os ataca”, conta.

De acordo com a Confederação Argentina da Média Empresa (Came), as vendas durante as festas de fim de ano em 2023 tiveram uma queda de 14% na comparação anual, com alimentos e bebidas liderando as quedas.

Na última terça-feira, 16, também segundo o jornal El Clarín, o dólar blue – principal cotação do dólar paralelo – fechou o dia vendido a 1.180 pesos argentinos, efetivando um novo recorde do câmbio.

Já o dólar oficial fechou no mesmo dia cotado a 837,75 pesos, levando a diferença com o dólar blue saltar para mais de 40%.

Apesar disso, um levantamento divulgado na última segunda-feira pelo El Clarín mostrou que Javier Milei é aprovado por 58% dos argentinos.

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