
Um mês após os terremotos que devastaram a Venezuela, familiares de vítimas continuam retornando diariamente aos locais onde prédios desabaram na esperança de localizar parentes desaparecidos. Com a diminuição das operações internacionais de resgate, grande parte das buscas passou a ser realizada por voluntários e pelos próprios familiares, que removem os escombros com ferramentas simples e, em alguns casos, com as próprias mãos.
No estado de La Guaira, o mais afetado pelo desastre, Maikol Morales volta todos os dias ao prédio onde morava com a família. Ele já encontrou o corpo da mãe, mas ainda procura pelo pai, pela irmã e pelos sobrinhos.
“Já encontrei minha mãe. Agora estou procurando meu pai, minha irmã e meus sobrinhos. Esta é a minha casa. É aqui que preciso procurá-los. Tenho certeza de que todos estão aqui”, afirmou.
Famílias buscam dar um sepultamento digno às vítimas
Para muitos parentes, a esperança de encontrar sobreviventes deu lugar ao desejo de recuperar os corpos dos familiares para garantir um sepultamento digno.
É o caso de Arlinda Prada, que também continua frequentando diariamente o local onde acredita estarem seus parentes.
“O simples fato de saber que eles estão aqui já basta. O importante é conseguir recuperar seus corpos, dar a eles um sepultamento digno e, assim, conseguir encerrar esse ciclo emocional e mentalmente”, disse.
Equipes internacionais encerram missões
Nas primeiras semanas após os terremotos, diversos países enviaram equipes especializadas em resgate, hospitais de campanha e ajuda humanitária para atender a população.
Entretanto, parte dessas missões já foi encerrada. O grupo mexicano Topos de Tlatelolco anunciou o fim das operações após considerar encerrada a chamada “janela biológica” para localização de sobreviventes.
A Espanha também desativou o hospital de campanha instalado em Caracas, que realizou cerca de 3.500 atendimentos durante quatro semanas.
Mesmo com mais de 2 mil socorristas internacionais ainda atuando no país, várias equipes concluíram seus trabalhos e retornaram aos seus países de origem.
Reconstrução preocupa organizações humanitárias
Organizações internacionais alertam que a Venezuela enfrenta agora uma nova fase da crise, marcada pela reconstrução das cidades e pelo agravamento da situação humanitária.
O Comitê Internacional de Resgate (IRC) informou que, antes dos terremotos, cerca de 8 milhões de venezuelanos já necessitavam de assistência humanitária. Em apenas um mês, esse número aumentou em 1,4 milhão de pessoas.
Segundo a organização, além da reconstrução de moradias, será necessário investir na recuperação da economia local, no funcionamento das escolas e no apoio aos pequenos negócios.
A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (FICV) também alertou para os riscos relacionados à falta de água potável, saneamento básico e assistência psicológica às famílias atingidas.
Mais de 5 mil mortos e milhares de desabrigados
Dados oficiais apresentados pelo presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, apontam que os terremotos deixaram mais de 5 mil mortos.
Além disso:
- 18 mil pessoas perderam suas casas;
- 23 mil seguem vivendo em 107 abrigos temporários;
- 190 edifícios desabaram, segundo o governo;
- Uma análise da NASA estima que cerca de 60 mil construções foram destruídas ou sofreram danos.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calcula que 8,6 milhões de pessoas foram afetadas pelos terremotos e que os prejuízos econômicos podem alcançar US$ 6,7 bilhões, valor equivalente a cerca de 6% do Produto Interno Bruto (PIB) venezuelano.
Número de desaparecidos ainda é desconhecido
Apesar do balanço oficial de mortos e desabrigados, o governo venezuelano ainda não divulgou quantas pessoas permanecem desaparecidas.
No cemitério La Esperanza, em La Guaira, uma área especial foi preparada para receber corpos retirados dos escombros que ainda aguardam identificação.
A venezuelana Milagris Rodríguez, que viajou do Chile para procurar a mãe desaparecida, resume o sentimento compartilhado por milhares de famílias.
“Desde o dia do terremoto, não tive mais nenhuma notícia dela. Procurei em hospitais de Caracas e em todos os lugares onde disseram que ela poderia estar. Fui até o local para onde estão levando os corpos das vítimas, mas ela também não estava lá”, relatou.
Enquanto o apoio internacional diminui, familiares seguem retornando diariamente aos locais destruídos, mantendo viva a esperança de encontrar seus entes queridos e encerrar um capítulo marcado pela dor e pela incerteza.







