
A médica Juliana Brasil Santos e a técnica de enfermagem Raíssa, ambas responsáveis pelo atendimento do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, no Hospital Santa Júlia, foram ouvidas nesta sexta-feira (28) no 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), em Manaus. As duas são investigadas pela morte da criança após a aplicação de uma dosagem incorreta de adrenalina por via intravenosa, procedimento que gerou forte reação adversa e resultou no óbito do menino na madrugada de domingo (24).
A médica Juliana chegou à delegacia acompanhada do advogado e não falou com a imprensa. A técnica de enfermagem Raíssa, que possui cerca de sete meses de experiência na área, também prestou depoimento e, ao deixar a unidade policial, confirmou que foi ela quem administrou a adrenalina, conforme prescrição médica.
Segundo o relato de Raíssa, tanto ela quanto a mãe de Benício estranharam a forma de aplicação do medicamento. A família informou que, em situações anteriores, a criança havia recebido adrenalina por nebulização, e não diretamente na veia. A técnica afirmou que nunca tinha aplicado adrenalina intravenosa e que seguiu exatamente o que constava na prescrição da médica.
Ela relatou ainda que, segundos após a aplicação, Benício começou a apresentar reação grave, com sinais de extremo desconforto. A técnica disse que imediatamente procurou a médica e relatou a situação.
“Quando eu cheguei, ele já estava para ser atendido. A médica perguntou o que estava acontecendo e eu informei que a criança estava tendo uma reação à adrenalina. Ela disse ‘tá bom’, e voltei para a pediatria. Quando eu chamei ele, ele começou a ficar pálido, a boca perdeu a cor e ele disse que o coração estava queimando. Eu corri e chamei a médica e a equipe de enfermagem para auxiliar”, relatou a técnica.
A mãe da criança afirmou à imprensa que, ao chegar à enfermaria, a médica questionou por que a medicação havia sido aplicada por via intravenosa, afirmando que o correto seria por nebulização.
Conforme a denúncia apresentada pelos pais na terça-feira (25), o menino sofreu lábios e rosto arroxeados, dificuldade respiratória e chegou a dizer que seu “coração estava queimando”. O quadro se agravou rapidamente, levando a múltiplas paradas cardíacas. Benício chegou a ser entubado, mas não resistiu após várias tentativas de reanimação.
Investigações preliminares apontam que a dose aplicada teria sido 30 vezes superior ao recomendado para uma criança da idade e peso de Benício, além de ter sido administrada por uma via inadequada para o caso. Especialistas consultados por investigadores afirmam que a adrenalina intravenosa é usada apenas em situações extremas, como parada cardiorrespiratória — o que não era a condição apresentada pelo menino no momento do atendimento.
O delegado Marcelo Martins, responsável pelo caso, solicitou na quinta-feira (27) a prisão preventiva da médica. Porém, a Justiça decidiu permitir que ela respondesse em liberdade, mediante habeas corpus preventivo, alegando que não foram apresentados elementos suficientes que justificassem a prisão no momento.
O caso está sendo investigado como homicídio doloso qualificado — quando há intenção de matar ou quando o autor assume o risco de provocar a morte. Para o delegado, a combinação da via de administração com a dosagem pode caracterizar “grave negligência ou imperícia”.
O Hospital Santa Júlia informou que abriu investigação interna por meio de sua Comissão de Óbito e Segurança do Paciente e que tanto a médica quanto a técnica foram afastadas das suas funções. A instituição afirmou ainda que está colaborando com as autoridades e que repassará todas as informações e documentos solicitados pela Polícia Civil.
A morte de Benício gerou forte comoção pública e levantou debates sobre protocolos de emergência, supervisão médica e capacitação de equipes em hospitais da rede privada de Manaus. A família tem cobrado celeridade e afirma que continuará buscando justiça para o menino.
As investigações seguem em andamento no 24º DIP.







