A primeira vez que li a frase de Aristóteles: “A admiração é o início da filosofia; quem deixa de se admirar deixa também de pensar”, senti que ela falava menos de filosofia e mais da vida cotidiana. E você, não sente isso também?

Ocorre que, infelizmente, a vida cotidiana está apressada demais. As informações chegam prontas, as opiniões vêm embaladas e as respostas surgem antes mesmo das perguntas. Nesse ritmo acelerado, a admiração, esse gesto simples de parar e se deixar tocar pelo mundo, parece um luxo fora de moda. No entanto, é justamente nela que o pensamento começa e, com ele, uma forma mais consciente de viver.

Admirar não é apenas achar algo bonito. É estranhar o óbvio, questionar o que parece definitivo e refletir sobre aquilo que muitos aceitam sem pensar. Aristóteles já intuía que, sem esse espanto inicial, a mente se acomoda. Quando deixamos de nos admirar, passamos a viver no piloto automático, aceitando ideias prontas e perdendo a consciência crítica, como se fôssemos produtos descartáveis.

É interessante observar que a admiração é o primeiro passo para o amor. Por exemplo, antes do namoro, das promessas e dos planos, há um instante silencioso em que alguém nos toca sem perceber. Admiramos o jeito, a palavra, o cuidado, a presença. Dessa admiração nasce o desejo de estar junto e de caminhar lado a lado. Com o tempo, ela amadurece e se transforma em compromisso, em projeto de vida, em família. Sem admiração, os vínculos perdem o sentido e a convivência se esvazia.

Mas a admiração não se limita ao outro amado. Ela se estende à própria vida. Devemos admirar o amanhecer, as pequenas conquistas, os encontros inesperados, as conversas simples. Admirar os amigos que permanecem, a natureza que insiste em florescer apesar do descuido humano, os animais que ensinam lealdade sem discursos. É a admiração que faz a pessoa gostar de viver e ir além das aparências.

Hoje, talvez, o maior desafio seja recuperar essa capacidade de admiração em meio aos excessos. Admirar um gesto simples de humanidade, uma paisagem que resiste ao concreto, uma pergunta bem colocada em meio ao barulho. Admirar, inclusive, o outro, sua história, sua dor, seu modo diferente de ver o mundo. Onde não há admiração, cresce a indiferença; e onde há indiferença, o pensamento adoece.

Portanto, partindo dessa frase de Aristóteles, podemos dizer que pensar exige pausa, silêncio interior e a coragem de não saber tudo. Nesse sentido, a admiração nos devolve uma humildade essencial: a de reconhecer que o mundo é maior do que nossas certezas e que sempre há algo a aprender, a questionar e a compreender.

Por fim, filosofar é um ato de resistência: resistir à pressa, à superficialidade e às verdades prontas. É voltar a admirar, reaprendendo a olhar para o outro, para a vida e para o próprio caminho. Porque, enquanto houver admiração, haverá pensamento e, com ele, amor e esperança na humanidade.

Vamos nos admirar? Vamos admirar a vida? Vamos admirar o mundo, as coisas e a realidade à nossa volta? Vamos filosofar?

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