Por Luís Lemos: filósofo, professor e escritor
Como estou de férias, só agora consigo olhar com calma para um tema que, desde o ano passado, insiste em martelar na minha cabeça: a escola pública como espaço de igualdade. Foi a partir dessa inquietação que este texto tomou forma.
O que me levou a pensar nisso foi um caso ocorrido na escola. Um aluno com grande dificuldade de aprendizagem, que precisava de mais tempo para completar as atividades, foi cobrado da mesma forma que os demais e acabou sendo reprovado.
Dias depois, ao conversar com ele, percebi a frustração e a injustiça sentidas por quem, apesar de se esforçar, não se encaixava no mesmo ritmo imposto a todos. “Professor, eu tento, mas parece que não importa o quanto eu me esforce, nunca consigo acompanhar os outros”.
E o pior de tudo é perceber que, em diversos momentos, a escola se apresenta como o lugar onde a palavra igualdade se concretizar. Mas, na prática, essa promessa se revela vazia: os alunos ficam todos sentados, todos copiando, todos seguindo as mesmas ordens, como se o tempo, o ritmo e as capacidades de cada um fossem iguais.
Para a sociedade, isso parece justo, democrático, civilizado. Mas basta uma pergunta, daquelas que só a Filosofia sabe fazer, para perceber que a igualdade, quando mal compreendida, pode ser apenas uma forma educada de injustiça.
Os educadores antigos já lembravam que os seres humanos não são iguais em capacidades, ritmos, histórias e circunstâncias. A psicologia educacional já mostrou, com rigor científico, aquilo que a experiência cotidiana confirma sem esforço: aprendemos de modos diferentes.
Há quem confunda igualdade com uniformidade. Dar oportunidades iguais não significa nivelar talentos nem ignorar desigualdades sociais. Crianças talentosas podem nascer em casas pobres, assim como privilégios materiais não garantem sensibilidade, inteligência ou curiosidade.
Quando o sistema educacional se limita a oferecer o mínimo para todos, em nome de uma falsa igualdade, acaba produzindo um paradoxo cruel: esgota os recursos públicos e empobrece as possibilidades humanas.
Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela que oferece o mesmo a todos, mas a que oferece mais a quem mais precisa. Não se trata de acentuar diferenças, mas de reconhecer que elas existem e que ignorá-las é um modo sofisticado de perpetuá-las.
Santo Tomás de Aquino, no século 13, já havia dito com desconcertante atualidade: “Nada mais injusto do que tratar igualmente os desiguais.” Talvez o papel da escola, hoje, seja justamente de lembrar que justiça não é matemática simples, mas ética aplicada à vida real. E que educar não é alinhar e sim compreender.
No fim das contas, a educação não deve fabricar iguais, mas criar condições para que diferentes possam caminhar com dignidade pelo mesmo mundo. Só assim a escola cumprirá seu papel de não nivelar, mas fortalecer; não fazer todos iguais, mas tornar possível que cada um exista plenamente, com justiça e humanidade.
Vamos filosofar juntos?





