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Um estudo aprofundado conduzido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou uma conexão direta entre as desigualdades sociais e o risco de morte por dengue no Brasil. A análise, que abrangeu milhões de registros de casos e óbitos, mostra que, embora a dengue seja uma doença endêmica com protocolos de tratamento estabelecidos, seu impacto não é uniforme em toda a população.

Publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Medicine em 3 de novembro de 2025, o trabalho demonstra que pessoas negras e de baixa renda enfrentam um risco significativamente maior de morrer após serem infectadas pelo vírus.

 Quem são os Grupos Mais Vulneráveis?

A pesquisa identificou que o risco de morte por dengue é maior entre:

  • Homens;
  • Pessoas negras;
  • Indivíduos com baixa ou nenhuma escolaridade;
  • Moradores da região Nordeste;
  • Pessoas com 60 anos ou mais;
  • Aposentados ou pensionistas;
  • Famílias em condições precárias de moradia e infraestrutura.

O dado mais alarmante é a disparidade racial: pessoas negras apresentaram duas vezes mais chances de morrer nos primeiros 15 dias após o início dos sintomas quando comparadas a pessoas brancas.

“Na prática, os resultados mostram que a letalidade por dengue no Brasil está fortemente ligada às desigualdades sociais”, explica Luciana Cardim, pesquisadora associada ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para a Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e líder do estudo.

A Desigualdade como Fator Determinante

Segundo a pesquisadora, o estudo analisou raça e renda não como fatores isolados, mas como parte de uma estrutura social que interfere diretamente no acesso à saúde. A demora na busca por atendimento e as dificuldades no acesso a cuidados adequados, especialmente em quadros graves de rápida evolução, são as principais causas de muitos dos óbitos.

“Esses são fatores determinantes que, quando desiguais, podem atrasar o diagnóstico, dificultar o manejo adequado dos casos graves e, consequentemente, aumentar as chances de óbito”, afirma Cardim.

Para chegar a essas conclusões, a equipe analisou mais de 3 milhões de casos de dengue registrados entre 2007 e 2018, cruzando dados da “coorte de 100 milhões de brasileiros” com informações socioeconômicas do Cadastro Único (CadÚnico) e registros de óbitos.

O Desafio da Subnotificação de Óbitos

Outro ponto crítico levantado pelo estudo é a subnotificação de mortes por dengue. Os pesquisadores descobriram que, em muitos casos, as declarações de óbito de pessoas em situação de vulnerabilidade continham causas mal definidas ou listavam outras doenças agravadas pela dengue como causa principal.

“Embora certas condições de saúde tenham sido agravadas pela infecção por dengue, levando ao óbito, elas não são a causa principal”, ressalta Cardim. Isso indica que o número de mortes por dengue no país pode ser maior do que os registros oficiais mostram.

 Caminhos para Reduzir a Desigualdade no Combate à Dengue

As conclusões do estudo reforçam a necessidade de políticas públicas focadas em duas frentes principais:

  1. Prevenção: Intensificar o controle do mosquito Aedes aegypti em áreas com piores condições de saneamento e infraestrutura.
  2. Assistência à Saúde: Fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS) para garantir o diagnóstico precoce, a identificação de sinais de gravidade e o encaminhamento rápido para tratamento. A hidratação adequada e o atendimento no tempo certo continuam sendo cruciais para evitar mortes.

Como Prevenir a Dengue

O Aedes aegypti se prolifera em locais com água parada. Medidas simples como eliminar recipientes que possam acumular água em casa, no trabalho e em áreas públicas são essenciais para impedir a reprodução do mosquito e controlar a disseminação da doença.

Com informações de Metrópoles 

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