Reprodução/CDC

Apesar de frequentemente ser considerada uma doença do passado, a hanseníase continua a ser um grave desafio de saúde pública no Brasil. O último boletim de casos, publicado em 2025, revelou que, somente em 2023, foram diagnosticados 22 mil brasileiros com a doença infecciosa. Preocupantemente, 2 mil desses pacientes já apresentavam estágio de incapacitação, incluindo deformidades e perda de membros.

O Brasil figura como o terceiro país no mundo com o maior número de casos de hanseníase, ficando atrás apenas da Índia e da Indonésia. O cenário é agravado pelo aumento de novos casos, que cresceram a uma taxa próxima de 10% desde a pandemia, conforme o boletim epidemiológico do Ministério da Saúde.

Prevenção, Desafios e “Endemia Oculta”

A hanseníase é prevenível por meio da vacinação com BCG, diagnóstico precoce e bons hábitos de higiene. Contudo, o Brasil enfrenta dificuldades em eliminar a transmissão do Mycobacterium leprae, principalmente devido a fatores socioeconômicos que limitam o acesso a saneamento básico e atendimento de saúde primário. Em 2023, foram registradas 2,3 mil ocorrências de pacientes com hanseníase em grau 2 (incapacidade física), e apenas 30% dos infectados chegam à cura.

A Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH) alerta para o risco de uma “endemia oculta”, estimando que há três a cinco vezes mais casos sem identificação no país. Para o presidente da SBH, Marco Andrey Cipriani Frade, o principal desafio é a conscientização. “Nosso principal compromisso tem de ser com a informação. A hanseníase deve ser tratada com inclusão e combate ao preconceito em um enfrentamento com empatia”, afirma.

O que é a Hanseníase?

É uma doença infecciosa e primariamente neural que ataca os nervos, podendo causar dor, formigamento e perda de sensibilidade na pele. Se diagnosticada precocemente, tem cura, e o tratamento, distribuído gratuitamente pelo SUS, interrompe a transmissão. No período entre 2014 e 2023, foram 300 mil casos notificados no Brasil.

Progressão da Doença, Diagnóstico e Tratamento

O bacilo da hanseníase provoca inflamação nos nervos. Em fase inicial, as chances de cura sem sequelas são maiores. Com a evolução prolongada, que pode levar anos, surgem manifestações cutâneas como manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, redução de pelos e perda de sensibilidade. Estágios avançados podem levar a inflamações dolorosas, deformações e nódulos corporais.

O diagnóstico envolve:

  • Exames de baciloscopia para detectar o bacilo ou seus danos nos nervos periféricos.
  • Avaliação de pequenas manchas da pele usando fios de náilon de diferentes espessuras para medir o grau de perda de sensibilidade.
  • Testes simples para percepção de toque, dor, frio e calor em áreas alteradas.
  • Palpação de nervos em joelhos, tornozelos, cotovelos e punhos para identificar espessamento ou dor, e análise da força muscular.

O tratamento é feito com poliquimioterapia, distribuída por seis meses para a maioria dos casos, e por 12 meses para pessoas com múltiplas infecções. Contudo, a SBH tem percebido um crescimento nos relatos de resistência antimicrobiana, já que os mesmos medicamentos são utilizados há 40 anos.

Hanseníase como Doença Negligenciada e o Papel do Dermatologista

A hanseníase faz parte da lista de doenças negligenciadas da Organização Mundial da Saúde (OMS), que engloba 20 condições preveníveis ou tratáveis que afetam mais de 1 bilhão de pessoas globalmente.

O preconceito é um obstáculo significativo. Muitos pacientes se isolam socialmente ou sofrem exclusão, como afastamento escolar e perda de emprego. A dermatologista Mariana Quintino Rabelo ressalta que a falta de informação leva muitas pessoas a acreditarem que a doença é incurável. “A pele costuma ser um dos primeiros órgãos afetados e é onde a doença é mais facilmente diferenciável. Com o olhar atento de um dermatologista, é possível identificar de forma muito mais precoce a doença e acelerar o tratamento”, conclui.

Com informações de Metrópoles

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