
Um novo estudo brasileiro, realizado pela Universidade de Brasília (UnB) e publicado na revista Frontiers in Pharmacology em novembro de 2025, analisou o uso de extratos de cannabis no tratamento de 29 mulheres brasileiras com síndromes de dor crônica. A pesquisa traz resultados promissores, indicando que o tratamento com cannabis pode oferecer uma nova perspectiva para pacientes que enfrentam sofrimento físico e emocional persistente.
As participantes do estudo tinham longos históricos de dor, frequentemente agravados pelo uso contínuo de analgésicos, antidepressivos e, em alguns casos, opioides. Além da dor física, elas lidavam com depressão, ansiedade, cansaço, dificuldades nas relações familiares e prejuízos na vida profissional. Após a introdução dos extratos de cannabis, todas as mulheres relataram melhora na dor e ganhos significativos na qualidade de vida.
Dor Crônica: Impacto Além do Físico
Os resultados do estudo reforçam que a dor crônica vai muito além do sintoma físico, impactando profundamente a rotina e o bem-estar dos pacientes. Muitas participantes precisavam deixar de trabalhar, descansar e até mesmo desfrutar de momentos com a família. O acúmulo de tarefas domésticas e de cuidados com familiares, que recai majoritariamente sobre as mulheres, intensificava o sofrimento, evidenciando a necessidade de um tratamento que considere o contexto integral da paciente.
“Grande parte dessas mulheres já acumulava prejuízos emocionais, sociais e familiares antes mesmo de iniciar o tratamento, e isso moldou a forma como cada uma respondeu à terapia”, explica Renato Malcher-Lopes, autor do estudo e pesquisador da UnB.
Redução de Medicação Tradicional e Alívio de Efeitos Colaterais
Um dos pontos mais relevantes da pesquisa foi a capacidade de reduzir o uso de medicamentos tradicionais. Entre as 29 mulheres, 24 utilizavam outros fármacos para controlar dor e sintomas emocionais. Com o avanço do tratamento com cannabis, mais da metade conseguiu diminuir ou eliminar o uso de analgésicos e antidepressivos, que frequentemente causavam efeitos negativos como sedação excessiva e limitações cognitivas. Cinco participantes passaram a usar exclusivamente o extrato vegetal de cannabis.
A abordagem individualizada foi crucial para o sucesso, com cada paciente respondendo de forma diferente às combinações de THC (tetrahidrocanabinol) e CBD (canabidiol). Algumas necessitaram de mais THC, outras de menos; algumas se beneficiaram de doses maiores de CBD, outras de quantidades menores. “A combinação certa de THC e CBD fez toda a diferença para cada paciente. Ao ajustar o extrato para cada perfil, todas tiveram algum nível de melhora”, afirma Malcher-Lopes.
Principais Benefícios Observados
O estudo registrou mudanças importantes entre as participantes, incluindo:
- Redução da dor.
- Aumento da disposição no dia a dia, com melhora na energia e no humor.
- Diminuição do cansaço e maior bem-estar emocional.
- Alívio de efeitos colaterais associados aos remédios usados antes do estudo.
O Papel Essencial das Associações de Pacientes
Os extratos utilizados na pesquisa foram produzidos por associações de pacientes. Os pesquisadores destacam a importância dessas organizações, que não só oferecem produtos com diferentes combinações de CBD e THC a preços mais acessíveis, mas também realizam controle de qualidade e atendem grande parte das pessoas que utilizam cannabis medicinal no Brasil.
De acordo com o estudo, a atuação dessas entidades é fundamental para o avanço de diversas pesquisas no país, incluindo investigações sobre dor crônica, autismo e doenças neurodegenerativas, ao fornecerem os extratos e auxiliar no acompanhamento clínico.
Com informações de Metrópoles







