
A situação do lixão a céu aberto de Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus, saiu do limite do tolerável e virou caso de denúncia pública. Na manhã desta quarta-feira (28), mais de 100 moradores de diferentes comunidades do município protestaram na sede da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM), em Manaus, exigindo a interdição imediata do local, apontado como foco de doenças, degradação ambiental e abandono social.
Representantes das comunidades São Francisco, São Sebastião, Nova Conquista, Novo Paraíso e São José II relataram impactos diretos causados pelo descarte irregular de resíduos sólidos, que ocorre — segundo os manifestantes — sem qualquer controle ambiental, mesmo após décadas de funcionamento e sucessivas promessas não cumpridas pelo poder público municipal, sob a gestão do prefeito Augusto Ferraz (União Brasil).
Após o ato, os moradores foram recebidos pelo defensor público Carlos Almeida Filho, da Unidade de Direitos Coletivos, que anunciou providências técnicas e jurídicas diante do que classificou como omissão do município.
Vistoria técnica e possível interdição
A primeira medida anunciada pela DPE-AM será a realização de uma vistoria técnica no lixão, com a presença de engenheiro da instituição, do defensor público local e de órgãos estaduais, como o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema). A Prefeitura de Iranduba será oficialmente comunicada sobre a inspeção.
Carlos Almeida deixou claro que, caso não exista solução ambientalmente adequada, como a implantação de um aterro sanitário regular, a Defensoria deverá recorrer à Justiça para pedir a interdição do lixão.
“O lixo chegou ao igarapé”
O defensor público afirmou que já esteve no local em 2023, ainda no primeiro mandato do atual prefeito, e que o cenário continua alarmante. Segundo ele, audiências públicas foram realizadas e compromissos assumidos pelo município, mas nenhuma medida concreta saiu do papel.

“O lixo chegou ao igarapé e agora está transbordando para a estrada. A insalubridade, o perigo e a violação ambiental são certos”, afirmou Almeida.
Intimidação, abandono e miséria
Durante a reunião, lideranças comunitárias relataram intimidação e tentativa de silenciamento por parte do poder público municipal. O presidente da Associação da Comunidade São Francisco, André Peres, afirmou que as reivindicações são ignoradas. “O município tenta calar a gente de todas as formas”, disse.
A moradora Clébia Bezerra, do Ramal do Caminhoneiro, denunciou chorume escorrendo pela rua, asfalto deteriorado e abandono total da área. Ela também chamou atenção para uma escavadeira da prefeitura, avaliada em cerca de R$ 1 milhão, que estaria abandonada e sendo soterrada pelo lixo.
O agricultor João Oliveira da Silva, do Ramal do Creuza, fez um dos relatos mais duros do encontro: “Famílias se humilham para sobreviver, ganhando R$ 10 ou R$ 15 o dia inteiro naquele mau cheiro. Isso é resultado do abandono da população mais pobre”.
A manifestação escancarou uma crise que vai além do lixo: trata-se de saúde pública, dignidade humana e responsabilidade ambiental — agora sob análise técnica e possível judicialização.







