Mirtes Renata, mãe de Miguel Otávio Santana da Silva — menino que morreu aos cinco anos após cair do 9º andar de um prédio no Centro do Recife — desabafou, nesta quarta-feira (18/2), sobre a demora no desfecho do processo que condenou a ex-patroa dela, Sari Corte Real, por abandono de incapaz com resultado morte. Quase seis anos após a tragédia, a ação ainda tramita em fase de recursos e a condenada segue em liberdade.

“Sari segue vivendo sua vida normalmente. Viaja, tira férias na Europa com seus filhos, faz planos, segue sorrindo. Eu preciso lutar por justiça e para que meu neguinho não seja esquecido. Ela leva os filhos para conhecer Paris. Eu vou ao cemitério para ver meu filho”, escreveu Mirtes.

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Em outro trecho, ela lamenta a liberdade da ex-patroa: “Condenada, mas livre para viajar e ter tempo em família. E eu, sem o cumprimento da sentença, condenada a viver sem meu filho. Eu nunca mais poderei viajar com Miguel. Nunca mais poderei mostrar o mundo a ele. Meu filho sequer teve a chance de conhecer plenamente a terra onde nasceu.”

No desabafo, a mãe de Miguel questionou o cumprimento da sentença. Em tom de cobrança, dirigiu-se ao Tribunal de Justiça de Pernambuco. “Quando será marcada a data do julgamento dos recursos? Quando teremos uma resposta que realmente represente justiça? Quando a condenação deixará de ser apenas no papel?”.

Procurado, o Tribunal de Justiça de Pernambuco não respondeu aos questionamentos até a última atualização desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.

O caso Miguel

O caso ocorreu em 2 de junho de 2020, no Condomínio Píer Maurício de Nassau, no bairro de São José, área central do Recife. Naquele dia, Mirtes havia descido ao térreo para passear com a cadela dos patrões. Miguel ficou no apartamento da então patroa, localizado no 5º andar.

Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que o menino entra no elevador. A gravação registra Sari Corte Real apertando um botão e deixando a porta se fechar com a criança sozinha. De acordo com laudo pericial, o botão acionado levava o elevador à cobertura do edifício.

O equipamento parou no 9º andar, onde Miguel saiu da cabine. Segundo a investigação, ele caminhou até uma área onde ficam equipamentos de ar-condicionado e caiu até o térreo. O menino morreu enquanto era socorrido.

Sari foi presa em flagrante e autuada inicialmente por homicídio culposo — quando não há intenção de matar. Ela pagou fiança de R$ 20 mil e foi liberada. Em maio de 2022, foi condenada a oito anos e seis meses de prisão por abandono de incapaz com resultado morte. Em novembro de 2023, a pena foi reduzida para sete anos. A defesa recorreu, e ela responde ao processo em liberdade.

Além da ação criminal, o casal Sari Corte Real e Sérgio Hacker responde a uma ação trabalhista por convocar Mirtes e a mãe dela, Maria Marta, para trabalhar durante a pandemia e por pagar salários com recursos da Prefeitura de Tamandaré. O processo resultou em condenação ao pagamento de indenização de R$ 1 milhão à família de Miguel, mas a decisão foi suspensa pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em setembro de 2024.

Desde 2021, Mirtes cursa direito para acompanhar de perto os trâmites processuais. Quase seis anos após a morte de Miguel, o processo segue em fase de recursos, e a condenada permanece em liberdade.

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