Por Luís Lemos: filósofo, professor, escritor.

Eu não sei explicar, mas gosto de Carnaval. Não desse que passa na televisão, cheio de luxo, brilho exagerado e gente famosa. Gosto do Carnaval de rua, daquele do meu tempo de menino, quando a alegria era simples e, talvez por isso mesmo, mais verdadeira. Era brincadeira de rua, sem violência, preconceito e preocupação moral, apenas o riso solto, a fantasia improvisada, o confete rareado e a certeza de que, por alguns dias, o mundo cabia inteiro dentro da nossa infância.

Naquela época, o Carnaval acontecia entre os moradores, no espaço mais democrático que existia: a própria rua. Não tinha arquibancada, camarote nem holofote. Bastava fechar à travessa, pendurar algumas bandeirinhas coloridas e deixar a festa tomar conta do lugar. As casas simples viravam camarins improvisados, de onde saíam crianças pintadas, adultos fantasiados com o que havia à mão e velhos sambas tocando em rádios chiados, mas cheios de vida.

Saíamos todos com trigo e maisena na mão, numa guerra branca e inocente, que logo virava risada, correria e abraço. Até os meninos que eram nossos desafetos vinham brincar junto, porque o Carnaval apagava, nem que fosse por alguns dias, qualquer briga. Era tempo de trégua, de paz silenciosa, quando ninguém queria ficar de fora da brincadeira.

As mães observavam da calçada, fingindo severidade, mas deixando escapar o sorriso no canto da boca. Os pais se permitiam esquecer o peso da semana, do trabalho pesado, das contas atrasadas. Por algumas horas, a dureza da vida dava lugar à leveza do riso, e a rua, antes tão comum, virava palco de pequenas alegrias coletivas.

Hoje, o Carnaval explora o lado mais egoísta das pessoas. Muitos se entregam aos excessos, ao esquecimento das regras, à festa do corpo e do prazer. As ruas viram territórios de liberdade quase total, onde o riso, a dança e o desejo caminham juntos, misturando o permitido e o proibido.

Nesse clima, a vontade de esquecer os problemas e cair na folia renasce em cada batucada, em cada corpo suado, em cada grito lançado ao vento. É como se, por alguns dias, a ordem, a rotina e as obrigações dessem lugar à bagunça criativa, à espontaneidade, à alegria sem freio. O Carnaval vira, assim, um grande desabafo pessoal.

Dessa forma, há, nesse jeito atual de viver o Carnaval, uma tristeza escondida. A festa, que antes nascia da convivência, da partilha e da alegria em grupo, virou, em muitos casos, um espaço de excessos solitários. As famílias se afastaram dessa celebração coletiva, como se o Carnaval já não fosse mais delas. O que era encontro virou espetáculo; o que era brincadeira virou consumo; o que era rua virou vitrine.

Com isso, perdeu-se o essencial, o riso dividido, a brincadeira sem maldade, o convívio entre as crianças, os jovens, a rua como lugar de encontro. Hoje, infelizmente, o Carnaval, que sempre foi expressão da alma do povo, corre o risco de virar apenas um grande show barulhento, bonito por fora, mas cada vez mais vazio por dentro.

Na minha época, diferente de hoje, o Carnaval era uma festa familiar e comunitária, as crianças brincavam livres, os adultos sorriam, apesar da pobreza material em que vivíamos. No meio da rua, com trigo e maisena voando, aprendíamos que a felicidade não mora no luxo, mas na partilha. E que o Carnaval, quando nasce do povo, é, acima de tudo, uma lição de humanidade.

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