
Apontado como o principal articulador de um esquema criminoso com ramificações dentro do poder público, Alan Kleber Bezerra Lima conseguiu escapar de uma ofensiva nacional da Polícia Civil do Amazonas, deflagrada no âmbito da Operação Erga Omnes. Enquanto ele permanece foragido em São Paulo, as investigações já revelaram que a organização ligada ao Comando Vermelho movimentou mais de R$ 70 milhões em apenas quatro anos, combinando tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção institucional.
De acordo com o delegado Marcelo Martins, 24° Distrito Integrado de Polícia que coordenou a operação, Alan fugiu de São Paulo por volta das 3h da manhã, mas sua esposa foi presa. O delegado destacou ainda que o criminoso se passava por evangélico e utilizava templos religiosos para esconder drogas e despistar a polícia., Alan Kleber exercia papel central na engrenagem criminosa, coordenando operadores financeiros, rotas do tráfico e contatos dentro de órgãos públicos. Em mensagens interceptadas, ele se apresentava como alguém com influência em “todas as esferas”, afirmando não temer prisões por manter uma rede de proteção abastecida com pagamentos regulares.
O rastro do dinheiro foi reconstruído a partir de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificaram movimentações incompatíveis com a renda declarada de empresas e servidores. A partir daí, os investigadores avançaram para quebras de sigilo bancário e fiscal, além da extração de dados de celulares, o que permitiu detalhar a estrutura financeira do grupo.
As apurações apontam que empresas registradas nos segmentos de transporte e locação funcionavam como fachada para dar aparência legal às operações. Na prática, eram usadas para comprar drogas na região de Tabatinga, na fronteira com a Colômbia, transportar os entorpecentes até Manaus e, depois, redistribuí-los para outros estados. Essas firmas não apresentavam atividade típica do setor: não negociavam com transportadoras nem mantinham custos operacionais compatíveis, concentrando transações apenas com traficantes e agentes públicos.
Com ramificações no Amazonas, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Piauí e São Paulo, o esquema operava como uma rede nacional de fornecimento e financiamento do tráfico. Com base no conjunto de provas — análises financeiras, dados telemáticos e relatórios técnicos — a Polícia Civil pediu à Justiça prisões preventivas, buscas e apreensões, bloqueio de contas, sequestro de bens e quebra de sigilos.
Até agora, foram expedidos 24 mandados de prisão, com 13 já cumpridos, além de 24 mandados de busca e apreensão. Veículos e valores vinculados aos investigados e às empresas fantasmas também foram sequestrados. Pelo menos 11 suspeitos seguem foragidos, a maioria no Amazonas. Alan Kleber deixou São Paulo horas antes da chegada das equipes, mas a esposa dele acabou presa pela polícia paulista.
Entre os alvos estão servidores do Judiciário, ex-assessores parlamentares, policiais e pessoas citadas por participação em movimentações financeiras suspeitas. Há ainda indícios de tentativa de acesso ilegal a informações sigilosas de processos criminais, numa estratégia para antecipar ações policiais e judiciais.
Segundo os investigadores, Alan Kleber também utilizava uma suposta ligação com igreja evangélica como forma de camuflagem social. Em uma ocorrência anterior, drogas teriam sido escondidas dentro de um templo religioso. A polícia apurou ainda que integrantes do grupo chegaram a morar em dependências de igrejas para dificultar a identificação.
As provas reunidas indicam que o acusado se vangloriava de comandar um esquema com “tentáculos” nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, garantindo aos comparsas que tinha pessoas infiltradas em órgãos estratégicos.
A Polícia Civil informou que, até o momento, não há políticos com foro privilegiado entre os investigados, mas apura se parlamentares tinham conhecimento da atuação de assessores envolvidos. Um dos alvos possui ligação direta com processos de licitação em órgão público.
Para a corporação, o caso escancara o avanço do crime organizado sobre a máquina estatal. As investigações seguem em andamento para localizar foragidos, rastrear ativos ilícitos e responsabilizar todos os envolvidos, além de interromper definitivamente a atuação da facção no estado.







