
Juiz de Fora – A chuva que atingiu a Zona da Mata mineira nos últimos dias já deixou ao menos 40 mortos só em Juiz de Fora, a maioria vítima de soterramentos provocados por deslizamentos de terra em áreas de encosta. Na região Sudeste da cidade, o bairro Nossa Senhora de Lourdes foi um dos mais afetados e é lá que o estudante Davi Ghedim Vitalino, de 22 anos, viu a casa onde nasceu ser destruída em questão de minutos.
O imóvel, construído há cerca de 40 anos pelos avós, ficava na Rua Florentina Garcia. Davi morou ali durante a infância, mudou-se com os pais e, recentemente, havia retornado para fazer companhia à avó, de 63 anos, após a morte do avô, em novembro do ano passado.
Na noite do deslizamento, por volta das 22h30, ele estava em casa com ela vendo televisão enquanto a chuva ganhava intensidade. “A minha avó sempre teve muito medo de chuva, mesmo com muro de arrimo. Quando a chuva ficou mais forte, ela pediu para eu olhar na internet se tinha algum alerta. Aí, de repente, ela disse que a parede tinha vibrado. Eu achei que tinha chutado a mesa sem querer. Mas não era isso”, contou ele.
Poucos minutos depois, Davi percebeu da varanda que do cano do vizinho estava descendo muito barro. “Eu virei para ela e falei: ‘Vó, isso não é normal, está saindo muito barro, será que não tem risco de cair nada?’.” Segundo ele, o intervalo entre o primeiro tremor e o desabamento foi de cerca de 10 minutos.
“Foi tudo muito rápido. A gente só escutou um barulho muito alto, coisa estalando, galho quebrando. Minha avó largou o copo que estava na mão e correu. Eu não sei de onde tirei força, mas corri no quarto, peguei um cachorro no braço, depois o outro, e comecei a descer a escada. Quando eu estava descendo, a terra já veio atrás de mim. Eu senti nas costas. Mais dois segundos e a parede teria caído em cima de mim”, relatou Davi.
A casa foi praticamente engolida pelo deslizamento. Apenas a varanda permaneceu de pé, ainda sob risco. Vizinhos também tiveram imóveis destruídos, e um morador chegou a ficar preso em um cômodo, sendo resgatado pelo telhado. Uma cadela foi soterrada, mas conseguiu ser salva.
Davi conseguiu sair apenas com o celular, que estava no bolso, os dois cachorros e a avó, que entrou em estado de pânico e correu morro acima pedindo ajuda.
No dia seguinte, ele voltou ao local. “Eu só chorava. Eu não sabia o que fazer. Meu avô faleceu em novembro. Tudo que a gente tinha de lembrança dele estava lá. Minha mãe também já é falecida. Todas as fotos, tudo que ela tinha me dado, ficou debaixo da terra.”
Sem casa, ele e a avó estão temporariamente abrigados na casa de familiares. O jovem, que planejava se formar na faculdade este ano, agora teme não conseguir concluir o curso diante das perdas materiais e da instabilidade financeira.
“Eu estava só estudando. Agora, sinceramente, não sei como vai ser. Mas o mais importante saiu comigo: minha avó e meus cachorros. O resto a gente tenta reconstruir.”
Tragédia das chuvas em Juiz de Fora e na Zona da Mata
O deslizamento da casa de Davi foi provocado pelas chuvas intensas que atingiram Juiz de Fora entre segunda (23/2) e terça-feira (24). De acordo com o Corpo de Bombeiros, Juiz de Fora registra 40 mortos e 25 desaparecidos até o último balanço divulgado nesta quarta-feira (25/2).
Os bairros Esplanada, JK, Monte Castelo e Costa Carvalho estão entre os locais onde vítimas foram encontradas nas últimas horas. Cerca de 3 mil pessoas estão desabrigadas e 400 desalojadas no município. Ao todo, 87 militares atuam nas ocorrências.
Os impactos das enxurradas atingiram diferentes pontos da cidade, sobretudo áreas de encosta e bairros localizados próximos a córregos e rios, onde se concentraram a maior parte dos deslizamentos responsáveis por mortes e pela destruição de imóveis. No bairro Parque Jardim Burnier, um dos mais atingidos, um grande deslizamento derrubou ao menos 12 casas, deixando moradores à procura de parentes e vizinhos em meio aos escombros e à lama.
Na cidade vizinha de Ubá, também na Zona da Mata, o temporal deixou seis mortos e duas pessoas desaparecidas, além de 26 desabrigados e 178 desalojados.
Com informações de Metrópoles.







