
A guerra entre EUA-Israel e Irã começa a produzir um dos choques energéticos mais sensíveis para a economia mundial desde a pandemia. Com o bloqueio operacional do Estreito de Ormuz — por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado globalmente —, o impacto se espalha rapidamente pelos mercados internacionais. No centro desse risco está a China, maior importadora de petróleo do planeta e responsável por aproximadamente 16% do consumo mundial de petróleo.
A exposição chinesa é elevada. O país importa cerca de metade de seu petróleo do Oriente Médio e aproximadamente 45% do óleo consumido depende direta ou indiretamente das rotas que passam por Ormuz. Além disso, Pequim tornou-se, em 2025, a maior compradora de petróleo iraniano, com cerca de 1,38 milhão de barris por dia.
O impacto já começa a aparecer nos custos logísticos. Tarifas de frete para grandes petroleiros na rota Oriente Médio–China atingiram níveis recordes, superando US$ 300 mil por dia, enquanto seguradoras e armadores elevaram prêmios de risco ou reduziram operações. Mesmo quando o petróleo ainda consegue chegar ao mercado, ele chega mais caro.
Esse aumento de custos tende a se transmitir à economia chinesa por três canais principais. O primeiro é inflacionário. Pequim já autorizou reajustes domésticos de gasolina e diesel, no maior aumento em quatro anos, sinalizando que o choque internacional começou a chegar à economia real.
O segundo canal é industrial. Petróleo e gás mais caros pressionam custos de refino, petroquímica, fertilizantes, transporte e geração de energia complementar, justamente quando o país busca sustentar um crescimento estimado entre 4,5% e 5% em 2026.
O terceiro canal é externo. Energia mais cara e fretes elevados pressionam margens exportadoras e podem reduzir a competitividade de manufaturas chinesas em um cenário de desaceleração do comércio global.
Apesar disso, a China entra na crise em posição relativamente mais confortável do que muitos importadores asiáticos. Estimativas apontam estoques que podem chegar a cerca de 1,3 bilhão de barris, equivalentes a mais de quatro meses de importações, o que oferece uma importante margem de manobra no curto prazo.
Outro fator estrutural que tende a reduzir gradualmente a vulnerabilidade energética chinesa é o avanço acelerado da eletrificação da frota. A China concentra hoje cerca de 60% das vendas globais de veículos elétricos e mantém o maior mercado mundial desse tipo de automóvel. Em 2025, os chamados “veículos de nova energia” — que incluem elétricos e híbridos plug-in — já representaram mais de 35% das vendas de carros novos no país. Esse movimento, combinado com a expansão da geração renovável e nuclear, tende a reduzir ao longo do tempo a dependência estrutural de derivados de petróleo no transporte.
A reserva estratégica de petróleo permite que Pequim reduza compras temporariamente, utilize reservas acumuladas e amplie a substituição por óleo russo ou outros fluxos descontados. O país também pode aumentar o uso de carvão, priorizar contratos de gás de longo prazo e ampliar importações por gasodutos vindos da Rússia e da Ásia Central.
Ainda assim, essas alternativas são limitadas. Rotas alternativas ao Estreito de Ormuz conseguem escoar apenas uma fração do volume normalmente transportado pela região, que em tempos normais supera 20 milhões de barris por dia.
Em outras palavras, a China possui instrumentos para amortecer o choque inicial. Mas, se o bloqueio do estreito persistir por muito tempo, a pressão sobre energia, indústria e comércio global tende a crescer — transformando uma crise logística em um risco macroeconômico relevante.
Com informações de CNN Brasil.







