Daniel Ferreira/ Metrópoles

O Banco Master recebeu R$ 39 milhões do Exército entre agosto de 2024 e outubro de 2025. O valor corresponde ao repasse de parcelas de empréstimos consignados contratados por militares junto à instituição controlada por Daniel Vorcaro.

A movimentação foi revelada pelo jornal Folha de S.Paulo e confirmada pelo Metrópoles. Os dados constam em um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviado à CPI do Crime Organizado.

Segundo o documento, os repasses foram feitos a uma conta do Master no Banco Itaú. Ao longo dos 14 meses analisados, os valores permaneceram por pouco tempo nessa conta e, em seguida, foram transferidos para outras contas no próprio Banco Master.

De acordo com o relatório, esse padrão de movimentação dificulta o rastreio do destino dos recursos. O levantamento aponta que a dinâmica impede “identificar se eventualmente existem outros beneficiários de valores”.

O documento também destacou indícios de “concentração de recursos ordenados pelo Comando do Exército”.

“Considerando o recebimento de créditos com o imediato débito dos valores, bem como concentração de recursos enviados para mesma titularidade, fazendo com que não seja possível, através desta análise, identificar se eventualmente existem outros beneficiários de valores, temos situações previstas para comunicação objetiva”, diz o relatório.

Em nota, o Exército afirmou que os valores “tratam-se, exclusivamente, de repasses de valores particulares decorrentes de consignações em folha de pagamento”.

Segundo a Força, o banco foi credenciado para ofertar crédito consignado a militares em fevereiro de 2023, após cumprir os requisitos previstos em edital. O contrato, porém, foi rescindido unilateralmente em novembro de 2025, poucos dias após a liquidação do Banco Master pelo Banco Central.

“O Comando do Exército realizou a rescisão unilateral do contrato de credenciamento. Desde então, o referido banco está impedido de formalizar novos contratos de consignação”, informou.

O Exército também afirmou que a sua atuação foi limitada a intermediar os descontos em folha e repassar os valores ao Banco Master.

“Cabe destacar que não houve qualquer perda patrimonial para o Erário ou para o Exército Brasileiro, pois os valores envolvidos são oriundos de rendimentos particulares dos militares para o pagamento de dívidas privadas”, declarou.

Crise do Master

  • 2018 a 2023: passando de Máxima ao Master, o banco trabalha para expansão, com aumento de captações e aportes. Nesse período, o banco passa ao controle de Daniel Vorcaro.
  • 1º semestre de 2024: o Master compra as instituições Voiter, LetsBank e Will Financeira. No mesmo período, o Banco Central exige um plano de contingência para garantir a liquidez.
  • Julho de 2024: o banco não cumpre o plano de negócios — previa captar R$ 15 bilhões, mas levanta apenas R$ 2 bilhões. Segundo o BC, o desempenho agrava a crise.
  • Setembro de 2024: o Banco Central identifica falta de capital e falhas na gestão de risco de crédito.
  • Novembro de 2024: o banco interrompe a concessão de crédito corporativo e admite mudanças no controle para evitar o colapso.
  • Janeiro de 2025: Daniel Vorcaro inicia negociações com o BRB para vender o Master.
  • Fevereiro de 2025: a instituição passa a descumprir exigências de recolhimento compulsório ao Banco Central.
  • Março a setembro de 2025: o Master busca apoio do FGC, enquanto Vorcaro vende ativos pessoais para reforçar o caixa.
  • Setembro de 2025: o BC barra a venda ao BRB, e a crise chega a um nível crítico.
    18 dias depois: Vorcaro apresenta um novo plano ao BC e afirma que o controle do banco seria transferido em até 90 dias.
  • Novembro de 2025: o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Master.

Consignados do Master

Empréstimos e cartões de créditos consignados são apontados como alguns dos fatores que impulsionaram a expansão do Banco Master ao longo dos últimos anos.

Em uma carta enviada ao Banco de Brasília (BRB) em janeiro de 2025, Daniel Vorcaro afirmou que, dos 11 milhões de clientes da instituição, cinco milhões estavam concentrados em operações de crédito consignado. Ao longo de 2024, Vorcaro afirmou que foram realizadas mais de R$ 3,5 bilhões em operações de crédito consignado.

Como mostrou o Metrópoles, entre 2020 e 2026, o banco de Vorcaro acumulou quase 15 mil reclamações sobre empréstimos consignados em uma plataforma do governo federal. Em outra base, que reúne registros dos Procons de todo o país, a instituição somou cerca de 9 mil queixas.

Com informações de Metrópoles.

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