Por Luís Lemos: filósofo, professor e escritor

Tenho a intenção de explicar a importância do amor e começo dizendo que amar é um ato de coragem. Talvez o mais arriscado de todos, porque não há garantia de que seremos correspondidos, de que alguém ficará ou de que uma história bonita terá um final feliz. Ainda assim, insistimos. Não desistimos, porque amamos. E, mesmo quando a vida nos ensina a ter medo, o coração insiste em acreditar que amar ainda vale a pena.

Gabriel García Márquez, em seu livro “Memória de Minhas Putas Tristes”, escreveu: “Só ama quem ainda tem esperança”. A frase me faz pensar que o amor não depende apenas da presença de alguém, mas também da disposição de continuar acreditando na possibilidade de ser feliz. Afinal, o que seria de nós se cada decepção nos roubasse a vontade de amar? O que restaria da vida se, por medo de sofrer, desistíssemos de amar?

Vivemos em um tempo em que as pessoas parecem ter medo de amar. Há quem prefira não se envolver para evitar o sofrimento, quem esconda os sentimentos atrás de uma indiferença ensaiada e quem vá embora antes mesmo de descobrir se poderia ser feliz. Como se não amar fosse uma forma de proteção contra as dores da existência. Mas será que podemos chamar de proteção aquilo que também nos impede de viver algumas das nossas maiores alegrias?

Amar é correr riscos. É permitir que alguém conheça nossas fragilidades, nossos medos e nossas contradições. É compreender que não somos feitos apenas de qualidades e que o outro também carrega suas imperfeições. O amor verdadeiro não exige que sejamos pessoas extraordinárias o tempo inteiro. Às vezes, basta sermos sinceros, presentes e capazes de reconhecer nossos erros.

Há muitas formas de amar. Existe o amor que nasce entre duas pessoas e aquele que se manifesta no cuidado dos pais com os filhos, na amizade que resiste à distância, no abraço oferecido sem perguntas e na mão estendida quando todos parecem ter desaparecido. Existe também o amor silencioso, aquele que não precisa de declarações grandiosas, porque se revela nos pequenos gestos: um café preparado com carinho, uma mensagem para saber se chegamos bem, uma preocupação disfarçada de conselho.

O problema é que, frequentemente, esperamos demais das palavras e prestamos pouca atenção às atitudes. Queremos ouvir que somos importantes, mas nem sempre percebemos quem demonstra isso diariamente. Procuramos grandes provas de amor e ignoramos a delicadeza das pequenas presenças. E, quando finalmente compreendemos o valor de alguém, às vezes já não há tempo para dizer o que deveria ter sido dito.

Talvez a coragem de amar esteja justamente no equilíbrio: entregar-se sem se perder, confiar sem deixar de enxergar, perdoar sem transformar o sofrimento em rotina e recomeçar sem exigir que o futuro repita o passado. Afinal, não podemos controlar os sentimentos alheios nem garantir a permanência de ninguém, mas podemos escolher como nos relacionamos com o mundo e com as pessoas que cruzam nosso caminho.

Por fim, Gabriel García Márquez tinha razão: só ama quem ainda tem esperança. E, quando o tempo nos perguntar o que fizemos com os dias que nos foram concedidos, talvez descubramos que o mais importante não foi evitar as dores do caminho, mas conservar a esperança, abrir o coração e ter a coragem de amar, mesmo sem garantias, como quem acredita que a vida sempre pode florescer outra vez.

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