Por Luís Lemos, filósofo, professor e escritor
Cheguei a São Gabriel da Cachoeira acreditando que iria apresentar os fundamentos da Filosofia da Educação a uma turma de professores indígenas. Levei comigo Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Rousseau, Paulo Freire e algumas perguntas bem organizadas. Mas bastaram os primeiros olhares, as primeiras falas e o silêncio atento da sala para que eu percebesse: a Filosofia já estava ali, antes de mim.
Propus então uma conversa simples. Perguntei o que entendiam por Filosofia e por Educação. As respostas vieram como quem puxa um fio antigo. “O conhecimento não se constrói apenas pela escrita ou pela ciência moderna, mas também pela oralidade, pela experiência coletiva e pelos saberes tradicionais”, respondeu Valdenir de Lima. Enquanto ele falava, pensei em Sócrates caminhando pela Ágora, perguntando mais do que respondendo, gesto muito parecido com o modo como os mais velhos ensinam nas comunidades.
Outra estudante completou: “A filosofia surge da curiosidade e do questionamento, e é pela oralidade que repassamos os saberes tradicionais, os mitos, a forma de viver”, disse Maria Brunete. A Filosofia, ali, não era uma disciplina distante, mas algo que atravessa gerações, despertando perguntas e ajudando a compreender a própria realidade.
Quando falamos de Aristóteles e da ideia de que o ser humano é um animal político, alguém observou que isso sempre esteve presente na vida indígena. “Nossos saberes estão ligados à vida coletiva, ao cuidado com a natureza e à responsabilidade com o grupo”, afirmou Yolanda Apolinário. A educação, nesse sentido, não forma apenas indivíduos, mas pessoas comprometidas com o bem comum.
Ao mencionar Kant e a noção de autonomia, o conceito ganhou outro contorno. “Aqui, autonomia não é isolamento, mas consciência da própria cultura e responsabilidade ética com o outro”, respondeu Josiane da Silva. A liberdade, naquele contexto, não se separa da comunidade; ao contrário, nasce dela.
Uma aluna falou da preocupação com o presente e o futuro. “Hoje, a nova geração vem perdendo interesse pela própria cultura; por isso, pais, lideranças e professores promovem assembleias e festas culturais para educar e influenciar”, explicou Lúcia Álvares. Ali compreendi que educação também é resistência silenciosa, feita de encontros, rituais e memória partilhada.
Outro estudante ampliou ainda mais o horizonte: “O filosofar nasce da admiração pela diversidade dos seres e pela interdependência entre humanos e natureza”, refletiu Orlando Mateus. Pensar, ali, era um exercício de cuidado com a vida. E pensar por si mesmo, como ele lembrou, “é um exercício de liberdade”, mas sempre em diálogo com a comunidade.
Por fim, ouvi uma síntese simples e profunda: “A filosofia dá sentido e direção à prática educativa, ajuda o professor a refletir por que educar e para quem educar”, afirmou Jonas Ananias. Sem esse diálogo, acrescentou, a escola corre o risco de se afastar da cultura e da realidade do povo.
Enquanto eu escutava, percebi que a Filosofia da Educação se fazia ali, sem precisar de definições rígidas. Ela se revelava no diálogo, no cuidado, na palavra partilhada. Eu tinha ido ensinar conceitos, mas estava aprendendo modos de existir.
Saí daquela aula com a certeza de que, em São Gabriel da Cachoeira, a Filosofia não mora nos livros. Ela caminha entre as pessoas, fala muitas línguas e ensina devagar. Ali, aprendi que ensinar Filosofia é, antes de tudo, aprender a escutar.





