Se você é, meu escasso leitor, ao contrário de mim, chegado a essas coisas do sobrenatural ou de espiritualismo, peça com muito fervor à sua divindade predileta que o poupe da perda de um ente querido. Sei que por mais poderosa ou prestigiosa que possa ser a entidade da sua preferência, é um pedido de difícil atendimento porque, no final das contas, a morte nos é tão inerente que com ela já deveríamos ter aprendido a manter um relacionamento, não digo de intimidade (longe disso), mas, pelo menos, tão amistoso quanto possível. Talvez assim a Inimiga das Gentes nos encarasse com um pouco mais de simpatia (ou piedade, se é que ela é capaz de tê-la) e nos poupasse de um comportamento devastador, como, por vezes sói acontecer em determinados períodos.

Falo por mim, é claro, mesmo sabendo que na minha idade as opções quanto a esse aspecto são cada vez mais raras. Ficamos velhos e as notícias da última viagem de parentes e amigos se tornam de uma frequência incômoda, a demonstrar que a tal Magra não está nem aí para sentimentos e ponderações. Ceifa (que, na sua figura tradicional, a indecente aparece sempre com uma foice) e pronto. Ficamos nós, os remanescentes, a lamentar, a chorar e a praticar um sem número de coisas que o bom senso diz inúteis e de duvidosa eficácia em termos de consolo.

Há um ano, por exemplo, perdia minha irmã caçula, a Mimita, que poderia perfeitamente ter vivido muito mais tempo na sua faina advocatícia. Nada disso, decretou a Parca, e levou-a sem a menor cerimônia, dando ao fato aquela aparência de naturalidade que, embora verdadeira, não é suficiente para nos guindar a um patamar de tranquilidade diante do inevitável. Não é mesmo, e lá estávamos, os irmãos e os filhos, a lamentar inconsoláveis o desplante com que fomos tão violenta e repentinamente agredidos.

De quebra, e como se não bastasse, já fui obrigado a me despedir para sempre de Álvaro Gaia Nina, João Bosco Simas Vieira e Pedro Augusto de Vasconcelos Dias, amigos queridos com os quais convivi a maior parte dos setenta e três anos em que vagueio por este “vale de lágrimas”, para usar uma expressão tão a gosto dos católicos, numa de suas preces mais pungentes. Foram, não me avisaram que iam e me deixaram aqui, lembrando de suas amáveis figuras, lamentando-lhes as ausências definitivas, assim como se a amizade fosse um nada que o tempo e ela (sempre ela, a tal de morte) pudesse suprimir por uma simples manifestação de caprichosa vontade.

Mas a amizade não é um nada e não pode ser assim suprimida. Digo-o eu que, já cansado de tantos golpes do mesmo naipe, acabo de sofrer mais um com a morte de João Batista Baldino. Médico da melhor qualidade, tantas pessoas tratou de câncer, na sua especialidade de radioterapeuta, que uma trágica ironia quis que a mesma e implacável doença lhe pusesse fim aos dias. Crudelíssimo. Morreu ele na quinta-feira da semana passada, mesmo dia em que do Rio de Janeiro chegaram a Manaus seu irmão Tino e Florinha, sua sobrinha. Vieram acompanhar com Leandro, Bruno e Junior, filhos de João, e Tânia, sua companheira, o que acabou se mostrando como os últimos momentos. Foi um espetáculo desolador.

A dor que se estampava na face de cada um deles era muito mais significativa que as lágrimas a rolarem aos borbotões. Era a dor pura e simples, na sua genuína expressão, na demonstração definitiva de que (sabíamos todos) meu querido amigo havia partido para a “voluptuosidade do nada”. É verdade. Agora acrescento João à lista dos amigos ausentes. Acréscimo muito mais doloroso quando penso em dona Flora, uma anciã de oitenta e seis anos e com problemas cardíacos, a quem ainda não se sabe como noticiar a perda do filho amado. Quanta crueldade! Só quero dizer ao João, assim como se ele ainda pudesse ouvir, que a Sede continua de luto, como de luto haveriam de estar todos os peixes, que da mesma canoa, pescamos juntos. Porque João era o mais amazonense dos cariocas. Adeus, querido amigo.

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