Três dias depois de ser alvo da Operação Dinastia do Lago e após receber críticas indiretas do próprio colega de partido Saullo Vianna (MDB), o deputado federal Adail Filho (MDB) voltou neste domingo (20) a Itacoatiara e respondeu politicamente aos ataques sem citar o nome do adversário. Ao lado do deputado estadual Thiago Abrahim e do prefeito Mário Abrahim, Adail apostou em um discurso centrado em recursos destinados ao município, obras e resultados de seus mandatos.

A reação ocorreu justamente em Itacoatiara, onde Saullo havia associado a operação da Polícia Federal ao que chamou de retirada de “dinheiro do povo”. Apesar de também não citar Adail Filho nominalmente, Saullo mencionou um deputado federal atingido pela operação, o afastamento do prefeito de Coari e os R$ 1,25 milhão encontrados anteriormente com três empresários — elementos diretamente relacionados à Dinastia do Lago.

Neste domingo, a resposta veio no mesmo estilo: ninguém mencionou Saullo. Mas as declarações de Adail Filho, Thiago Abrahim e Mário Abrahim defenderam a atuação parlamentar do deputado e colocaram como parâmetro de avaliação política aquilo que, segundo eles, foi efetivamente destinado e realizado em Itacoatiara.

Thiago: “Quantos deputados destinaram tantos recursos quanto Adail?”

Uma das manifestações mais diretas partiu de Thiago Abrahim.

O deputado estadual questionou publicamente quantos parlamentares federais teriam destinado ao município volume de recursos semelhante ao atribuído a Adail.

“Quantos deputados federais destinaram tantos recursos quanto o Adail destinou?”, perguntou Thiago.

A declaração funcionou como defesa política de Adail Filho poucos dias depois da operação da PF e das críticas feitas por Saullo no município.

Na manifestação divulgada pelo grupo neste domingo, a mensagem foi de que Itacoatiara vive um novo momento e que a população poderia avaliar quem esteve presente e contribuiu com recursos e investimentos.

Mário Abrahim: “A gente é avaliado pelo que a gente faz”

O prefeito Mário Abrahim seguiu a mesma linha e transformou as realizações dos mandatos no principal argumento em defesa dos dois parlamentares.

“A gente é avaliado pelo que a gente faz. E quer melhor avaliação pro Thiago e pro Adail do que eles fizeram por nós?”, declarou o prefeito.

A fala ganha peso pelo momento em que ocorre. Adail Filho tenta a reeleição para deputado federal e foi alvo de busca e apreensão na quarta-feira (16), enquanto seu pai, o prefeito de Coari, Adail Pinheiro (Republicanos), foi afastado cautelarmente do cargo.

Mário Abrahim, portanto, não entrou no mérito das suspeitas investigadas pela Polícia Federal. Sua defesa foi baseada na atuação política e na destinação de recursos para Itacoatiara.

Adail: “Itacoatiara sabe quem esteve presente”

Adail Filho também evitou confronto nominal com Saullo.

O deputado afirmou que o município vive um momento de “progresso” e “desenvolvimento” e sustentou que sua atuação parlamentar pode ser medida pelos recursos destinados a Itacoatiara.

Na publicação sobre a agenda, o grupo afirmou que “Itacoatiara sabe quem esteve presente, quem ajudou e quem não virou as costas para o município”.

Adail ainda reforçou a aliança política com Thiago e Mário Abrahim e declarou que pretende percorrer o Amazonas ao lado do grupo.

“O meu partido é o estado do Amazonas! E o meu lado é aqui, ó: é ao lado de vocês, é ao lado do povo!”, declarou.

O parlamentar encerrou pedindo apoio às candidaturas dele e de Thiago Abrahim nas eleições de 4 de outubro.

Resposta acontece no território onde Saullo fez críticas

O cenário escolhido para as manifestações acrescenta um ingrediente político ao episódio.

Foi em Itacoatiara que Saullo Vianna, também candidato à reeleição pelo MDB, fez um dos discursos mais duros relacionados à Dinastia do Lago.

Sem pronunciar os nomes de Adail Filho ou Adail Pinheiro, Saullo afirmou:

“Essa operação da Polícia Federal que aconteceu essa semana, que afastou prefeito, que envolveu deputado federal, que mandou 1 milhão em dinheiro para Brasília com três empresários, é o teu dinheiro que tá lá.”

Saullo também declarou que era necessário “dar um basta” em políticos que, segundo ele, retirariam dinheiro da população para benefício próprio. A afirmação sobre a origem e destinação dos recursos representa uma acusação política feita pelo deputado; a investigação da PF ainda busca esclarecer a origem, o destino e as responsabilidades relacionadas aos valores.

As declarações provocaram repercussão também porque Saullo e Adail Filho são filiados ao MDB, concorrem à reeleição para a Câmara dos Deputados e disputam votos dentro do mesmo campo político. Em 2022, ambos tiveram votação expressiva em Itacoatiara, com diferença de apenas 193 votos entre eles, segundo levantamento publicado pelo Amazonas 1.

Dinastia do Lago atingiu Adail Filho

A Operação Dinastia do Lago foi deflagrada pela Polícia Federal com apoio da Controladoria-Geral da União na quarta-feira (16).

A PF cumpriu 29 mandados de busca e apreensão em Manaus e Coari, além de medidas cautelares determinadas pelo Supremo Tribunal Federal. A investigação apura a possível atuação de uma organização criminosa em fraudes licitatórias, desvio de recursos públicos, corrupção e lavagem de dinheiro relacionados à gestão municipal de Coari.

Adail Filho esteve entre os alvos das buscas. Seu pai, Adail Pinheiro, foi afastado temporariamente do comando da Prefeitura de Coari.

Segundo a Polícia Federal, a investigação teve início após a apreensão de aproximadamente R$ 1,25 milhão em espécie transportados por três empresários em um voo entre Manaus e Brasília, em maio de 2025. As apurações apontam indícios de possível atuação coordenada entre empresários, agentes públicos e terceiros.

A PF investiga, em tese, organização criminosa, fraude à licitação, corrupção, peculato e lavagem de dinheiro. Até o momento, as medidas adotadas contra Adail Filho são cautelares e não representam condenação nem comprovação definitiva das suspeitas investigadas.

De “dinheiro do povo” a “resultado se prova com trabalho”

Em menos de quatro dias, Itacoatiara acabou transformada em palco público de uma disputa entre dois deputados federais do MDB.

De um lado, Saullo Vianna utilizou a Dinastia do Lago para defender responsabilidade com recursos públicos e fez acusações genéricas contra políticos que, segundo ele, colocariam dinheiro público “no bolso”.

Do outro, Adail Filho não respondeu às acusações diretamente nem citou Saullo. Ao retornar ao município, preferiu apresentar como contraponto sua atuação parlamentar. Thiago Abrahim perguntou quem teria destinado tantos recursos quanto Adail, enquanto Mário Abrahim resumiu o argumento do grupo: “A gente é avaliado pelo que a gente faz.”

Assim, sem que nenhum dos lados pronunciasse o nome do outro, a Operação Dinastia do Lago abriu uma disputa pública entre dois candidatos à reeleição que, além de concorrerem às mesmas vagas para deputado federal, carregam a mesma sigla: o MDB.

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