Por Luís Lemos: filósofo, professor e escritor

Estive, recentemente, em São Gabriel da Cachoeira, no coração do Amazonas, ministrando a disciplina Filosofia da Educação para os alunos do 6º período do Curso de Letras – Língua Portuguesa, da UEA (Universidade do Estado do Amazonas), no âmbito do Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica – PARFOR.

Como todo filósofo cartesiano, cheguei ao primeiro dia de aula com a segurança de quem confia no planejamento: plano de ensino alinhado, textos impressos, autores sublinhados. Sócrates à esquerda, Platão à direita, Kant no centro. Pensei comigo, confiante: “Hoje a razão dará conta do recado”. Não deu.

Eu iniciei a aula apresentando os slides sobre os primeiros filósofos: Tales de Mileto, Heráclito, Pitágoras e quando avançava para os filósofos clássicos: Sócrates, Platão e Aristóteles, a energia foi embora. E, junto com a luz, ficou pelo caminho tudo aquilo que eu tinha planejado.

Foi então que um aluno, com a maior tranquilidade do mundo, levantou a mão e perguntou: — “Professor, posso fazer um relato?”. Respondi que podia. Ele contou da vez em que o avô o levou para pescar e, no caminho, ensinou que o rio também pensa. Disse que, se a gente não respeitar o tempo da água, o peixe não vem. Quando terminou, me olhou sério e perguntou: — “Isso também é Filosofia?”.

Outro aluno, sentindo-se encorajado pela pergunta do colega, pôs-se a falar: — “Professor, lá na minha comunidade a gente aprende assim também. Primeiro ouvindo. Depois, fazendo. Se a gente não escuta direito, a natureza acaba morrendo e toda a comunidade sofre as consequências”.

Foi só então que entendi que a Filosofia não começa com um “penso, logo existo”, mas com “escuto, logo aprendo”. Ensinar, naquele contexto, não era apenas explicar slides, transmitir informações, citar filósofos difíceis, ler artigos científicos, mas ouvir e acolher suas histórias.

A aula deixou de ser expositiva e virou encontro, roda de conversa, mistura de bate-papo com sabedoria indígena, de livro com memória, de universidade com aldeia. A partir daquele dia, ensinar e aprender deixaram de ocupar lugares opostos e passaram a acontecer juntos, no mesmo gesto de escuta e partilha.

Quando falávamos de educação, não era teoria distante. Era escola, era língua, era luta para não perder o que os mais velhos ensinaram. Era a preocupação com o futuro sem romper com a memória, com o aprender sem esquecer quem se é, com o ensinar sem apagar histórias, saberes e modos próprios de viver e pensar o mundo.

Teve um dia em que tentei explicar Kant e a tal da autonomia. Outro aluno resumiu melhor do que eu: — “Então é quando a gente aprende a pensar sem esquecer quem ensinou a gente a ser gente”. E quando falei da crítica de Adorno à indústria cultural, um aluno disse, com a firmeza de quem conhece a história na própria pele: — “Os povos originários, por não dominarem a língua dos brancos, sempre foram mercadoria barata”. Não tenho dúvida, se esses filósofos estivessem ali, teriam aplaudidos de pé aqueles alunos.

Fui para lá pensando que ia ensinar Filosofia a eles, mas, no fim, foram eles que me ensinaram a filosofar. Descobri que a educação não existe apenas nos cadernos; ela se revela na conversa após a aula, no riso compartilhado, no cuidado com o tempo do outro. Foi assim que aprendi que filosofar é, antes de tudo, aprender a existir junto daqueles que estão ao nosso lado.

Voltei de São Gabriel com menos perguntas e mais histórias, com menos certezas e mais escuta, com menos conceitos prontos e um desejo maior de aprender com as muitas etnias que dão vida àquela região. Voltei diferente. E foi ali, que as palavras de Kant, enfim, fizeram sentido para mim: “Não se ensina filosofia; aprende-se a filosofar”.

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