
Por muitos anos, a aspirina (ácido acetilsalicílico, ou AAS) em baixa dose foi considerada uma promissora aliada na prevenção do câncer colorretal. No entanto, um estudo de grande porte recentemente publicado, o ASPREE, traz novas perspectivas e desmistifica essa crença para um grupo específico: idosos saudáveis. A pesquisa, que acompanhou mais de 19 mil pessoas na Austrália e nos Estados Unidos por até nove anos, concluiu que a medicação não demonstrou o benefício esperado nessa população.
Uma Crença Antiga Questionada
Desde o início dos anos 2000, estudos observacionais, muitos originados de pesquisas cardiológicas, indicavam que indivíduos que utilizavam o AAS regularmente apresentavam um menor risco de desenvolver câncer colorretal. Essa hipótese ganhou força e foi amplamente aceita pela comunidade científica. No entanto, conforme explica o oncologista clínico Rodrigo Fogace, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, “essas hipóteses surgiram a partir de estudos não randomizados, nos quais se observava que pacientes em uso de aspirina tinham menos câncer de cólon. Isso acabou sendo aceito pela comunidade científica por um período, mas nunca houve estudos de fase 3 desenhados especificamente para esse objetivo”.
O Estudo ASPREE: Uma Lacuna Preenchida
O estudo ASPREE foi meticulosamente desenhado para preencher essa lacuna. Ele incluiu 19.114 idosos, com idade média superior a 75 anos, todos considerados saudáveis no início da análise, sem histórico de doenças cardiovasculares, demência ou limitações físicas significativas. Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu 100 mg de AAS por dia, e o outro um placebo, por aproximadamente quatro anos e meio.
Resultados Inesperados e Preocupantes
Os resultados foram surpreendentes e não confirmaram os benefícios esperados:
- Nenhuma Diferença na Incidência de Câncer: Não houve diferença significativa na incidência global de câncer entre os grupos, nem mesmo quando os tumores foram analisados por tipo ou estágio, incluindo o câncer colorretal.
- Aumento Temporário da Mortalidade por Câncer: Durante o período de uso da medicação, houve um aumento de 15% na mortalidade por câncer. Após a interrupção do fármaco, esse risco elevado não persistiu, sugerindo a ausência de um efeito duradouro.
“Alguns estudos anteriores demonstravam redução de 20% a 30% no risco de desenvolver câncer colorretal. Esse foi o maior estudo voltado exclusivamente para a pergunta se o uso da aspirina reduziria ou não o risco de câncer colorretal em idosos”, destaca Fogace. “A resposta foi clara: não houve redução do risco e, para nossa surpresa, durante o período de uso, houve um pequeno aumento na incidência do mesmo tipo de câncer”.
Por Que o Aumento da Mortalidade?
As razões para esse achado ainda não são totalmente compreendidas. Hipóteses incluem mudanças no microambiente intestinal associadas ao envelhecimento, alterações na resposta imunológica ou a possibilidade de que alguns participantes já tivessem tumores microscópicos no início do estudo. No entanto, o oncologista ressalta: “São explicações possíveis, mas é importante deixar claro que não podemos afirmar que a aspirina cause câncer. O estudo não foi desenhado para responder a essa pergunta”.
Limites da Pesquisa e Orientações Futuras
A pesquisa ASPREE não responde se há benefício no uso de AAS em pessoas mais jovens para prevenir o câncer. “Uma grande diferença dos estudos de pacientes mais jovens é que esses utilizavam a aspirina por muito mais tempo do que esse estudo em idosos propôs. Será que esse é um dos fatores que influenciou nos achados? Infelizmente, não conseguimos afirmar”, observa Fogace.
O especialista enfatiza a importância de não extrapolar resultados: “Não podemos assumir que estratégias que funcionam em pessoas mais jovens terão o mesmo efeito em idosos. O estudo deixa claro que a aspirina não é uma estratégia universal de prevenção do câncer colorretal e que seu uso deve ser feito com muita cautela e apenas em situações muito específicas”.
Quem Pode se Beneficiar da Aspirina?
Entre os casos em que o uso de AAS pode ser indicado para prevenção do câncer estão:
- Pessoas com síndrome de Lynch.
- Indivíduos com histórico de múltiplos adenomas ressecados.
- Pacientes que já utilizam aspirina para prevenção de eventos cardiovasculares (nesse caso, o benefício cardiovascular pode se sobrepor a outros riscos ou ausência de benefício oncológico).
Detecção Precoce do Câncer de Intestino: Sinais de Alerta
Independentemente do uso de AAS, a detecção precoce do câncer colorretal continua sendo crucial. Segundo o Ministério da Saúde, a investigação pode ser feita por meio de exames clínicos, laboratoriais, endoscópicos ou radiológicos em pessoas com sinais e sintomas sugestivos da doença.
Principais Sinais e Sintomas:
- Sangue nas fezes.
- Alteração do hábito intestinal (diarreia e/ou prisão de ventre).
- Dor, cólica ou desconforto abdominal persistente.
- Fraqueza, indisposição e anemia sem causa aparente.
- Perda de peso inexplicável.
- Sensação de inchaço abdominal ou de fezes constantemente presas.
Converse com Seu Médico
Com informações de Metrópoles







