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Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e publicada no periódico Clinics revelou que a autocoleta de amostras de urina e material vaginal para detecção do Papilomavírus Humano (HPV) é uma estratégia viável e confiável na prevenção do câncer de colo do útero. O estudo aponta que esses métodos apresentam desempenho muito semelhante à coleta cervical tradicional, realizada por profissionais de saúde.

O câncer de colo do útero, embora seja totalmente prevenível e diagnosticável precocemente através de exames preventivos, ainda representa uma séria ameaça à saúde feminina no Brasil, causando milhares de mortes. É o tumor ginecológico mais comum no país e a principal causa de morte por câncer entre mulheres de até 36 anos. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) estima que, a cada minuto, uma pessoa no mundo é diagnosticada com um câncer associado ao HPV. A infecção por HPV é altamente incidente, com 54,4% das mulheres brasileiras apresentando a infecção genital, o que reforça a urgência de métodos de rastreamento eficazes e acessíveis.

O Estudo e Seus Achados

A pesquisadora Lara Termini, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), em colaboração com o ginecologista Gustavo Maciel, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP), recrutou 100 mulheres para o estudo. A maioria delas, com idades entre 30 e 39 anos, já havia sido encaminhada para colposcopia devido à presença de lesões de alto risco ou diagnóstico de câncer.

Foram realizadas três coletas sequenciais: de urina e vaginal (autocoletadas pelas participantes) e cervical (realizada por um médico). Os resultados demonstraram uma alta concordância entre a autocoleta de urina e vaginal e a coleta tradicional na detecção do HPV de alto risco oncogênico, inclusive para o HPV16, um dos tipos mais associados ao câncer.

“Nossos achados indicam que a autocoleta representa uma estratégia mais inclusiva e acessível, pois permite que qualquer pessoa com útero realize a coleta de forma autônoma, fora do ambiente clínico”, afirma Lara Termini. Fatores como medo, dificuldade de acesso, falta de tempo e aspectos culturais/religiosos são barreiras que impedem muitas mulheres de realizar o exame tradicional. Entre os métodos de autocoleta, a coleta de urina foi a mais bem aceita, associada a maior conforto e menor constrangimento.

Relevância e Contexto Global

A autocoleta vaginal já é uma prática estruturada em programas de rastreamento de diversos países, como Holanda, Austrália, Suécia e Dinamarca, com impacto positivo comprovado na ampliação da cobertura populacional. No Brasil, embora ainda sem previsão de implementação, essa iniciativa é crucial.

“Esse tipo de iniciativa é muito relevante, pois há um movimento da Organização Mundial da Saúde [OMS] e de outras instituições que visam a erradicação do câncer de colo de útero até 2030 a partir de alta cobertura vacinal, capacidade de diagnóstico e tratamento”, ressalta o ginecologista Renato Moretti, do Einstein Hospital Israelita.

Câncer de Colo do Útero e HPV: Uma Visão Geral

O câncer de colo do útero se desenvolve nas células da parte inferior do útero. A maioria dos casos está associada à infecção persistente pelo HPV. Na fase inicial, a doença geralmente não apresenta sintomas, o que reforça a necessidade de rastreamento. Com a progressão, podem surgir sangramento vaginal irregular, corrimento com mau cheiro e dor pélvica.

A maioria das infecções por HPV é assintomática e pode ser eliminada espontaneamente em até 24 meses. No entanto, a persistência do vírus é um fator de risco para o desenvolvimento de lesões precursoras e, posteriormente, do câncer.

Rastreamento no Brasil e Prevenção

Em agosto de 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) incorporará o teste molecular para detecção do HPV como estratégia de rastreamento do câncer de colo do útero, permitindo a identificação de alterações até dez anos antes do exame de Papanicolau. A autocoleta, nesse cenário, poderia complementar e ampliar ainda mais o acesso, beneficiando mulheres com menor acesso aos serviços de saúde, desde que acompanhada de um fluxo bem definido para o cuidado das pacientes com resultados alterados.

“Esse estudo dá abertura para novas investigações feitas em ambientes adequados e abre espaço para mulheres com menos acesso aos métodos de rastreamento do câncer do colo uterino”, comenta Moretti.

A OMS alerta que, sem ações preventivas, o câncer de colo do útero pode causar cerca de 411 mil mortes no mundo até 2030. A prevenção é fundamental e envolve diversas estratégias:

  • Vacinação contra o HPV: Oferecida gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 19 anos.
  • Uso de preservativos: Diminui o risco de transmissão do HPV.
  • Hábitos de vida saudáveis: Evitar tabagismo e consumo excessivo de álcool.
  • Exames ginecológicos regulares: O acompanhamento regular, incluindo Papanicolau e teste de HPV, reduz a mortalidade por câncer de colo do útero. Inclusive mulheres vacinadas devem manter o rastreamento periódico, pois a vacina não protege contra todos os tipos de HPV e o exame é essencial para identificar precocemente quaisquer alterações.

A genotipagem do HPV é recomendada pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica para mulheres entre 25 e 64 anos, especialmente a partir dos 30,para um rastreamento mais preciso.

Com informações de Metrópoles

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