Na minha idade já não tenho tempo a perder com covardes e outros biltres da espécie. Por isso não vou falar da vergonhosa fuga empreendida por esse poltrão que disputou a presidência. Permito-me dizer apenas que, nesse aspecto, o pai, que também não é flor que se cheire e apesar dos soluços, pelo menos está cumprindo a pena de prisão que fez por merecer. Deixa pra lá. Foi apenas um pesadelo.

Mas já que falei em idade, permitam-me compartilhar uma coisa curiosa, observada por mim durante a campanha. Depois de, a muito custo, conseguirem compreender que me chamar de “comunista” está longe de ser ofensa para mim (muito pelo contrário), alguns bolsomínions resolveram insistir em que sou um “velho”. Acho que chamam isso de “etarismo”. Sou mesmo e estou de inteiro acordo com meu querido irmão Alfredo Cabral para quem dizer que a velhice é a “melhor idade” só pode ser obra de humor negro. Alguns, mais afoitos ou sob o efeito de detergente, acrescentavam o adjetivo “gagá”.

Aí cometeram erro insuperável. O alemão ainda não me visitou e a memória, se faz das suas eventualmente, permanece de causar inveja àqueles que já esqueceram, por exemplo, que Bolsonaro foi o pior presidente que este país teve a infelicidade de conhecer. Lembro bem e de muita coisa que, já nos anais da história, marcou a trajetória da minha vida.

Não dá para esquecer o 1º de abril de 1964. Com apenas vinte e um anos de idade, vi a Constituição do meu país ser rasgada, o presidente ser deposto e o poder assaltado por militares absolutamente descomprometidos com os interesses da Nação por isso que estavam a serviço do imperialismo americano. 

Vi a censura calar a boca de artistas e poetas, pois a liberdade teve que recolher as asas que havia aberto sobre nós. Pior que isso: vi as abundantes lágrimas de mães e esposas às quais não era dado o elementar direito de saber o que havia sido feito de seus filhos e maridos. Afinal, os porões da ditadura estavam repletos dos “criminosos” que haviam cometido o pavoroso delito de pensar. Aí, em nome do “deus, pátria e família”, os instrumentos de tortura foram aprimorados e empregados com excepcional prodigalidade. O “pau-de-arara” ficou obsoleto. O DOI-Codi dispunha de mecanismos mais modernos e eficientes para obter “confissões espontâneas”. Quando nada desse certo, restava o recurso de lançar o “criminoso” de um helicóptero e sem paraquedas no meio do Oceano Atlântico.

Também não esquecei agosto de 1968. A ditadura chegou à insanidade completa e deu um golpe em si mesma. Veio à luz, então, o feto jurídico mais escabroso da história: o Ato Institucional número 5, ou simplesmente AI-5, como era carinhosamente chamado pelos adeptos da estupidez. Suprimiu-se o habeas corpus, instituiu-se a pena de morte e os órgãos de repressão colheram forças nunca dantes vistas, no devastado cenário da política nacional.

Porém, dirão meus detratores, são coisas antigas e delas os gagás sempre se recordam, enquanto que, para fatos recentes, a memória é zero. Ledo engano. 2020 foi ainda ontem e não posso deixar de lembrar, com pavor e asco, como se comportou o então presidente da República, diante da pandemia que assolava o mundo. Negou a ciência, zombou dos vitimados pela doença e, de irresponsabilidade em irresponsabilidade, conseguiu que mais de setecentos mil brasileiros perdessem a vida. As covas chegaram a ser coletivas, tamanha foi a atividade da ceifadora.

Queriam o quê, então? Que, como brasileiro, eu manifestasse apoio a gente desse tipo? Não; mil vezes não. O amor que tenho pelo meu país jamais me permitiria esse gesto de traição. Sou, pois, um velho brasileiro (e comunista) que se manteve altivo, na defesa de suas convicções. Afinal, amar a Pátria não é nenhum favor.

A propósito, encerro transcrevendo trecho de um documento dos tempos da revolução francesa, contido no livro do historiador Léon Gautier. Que sirva de exemplo para os fujões de todos os matizes: “A Pátria é o país onde nasceste e onde tens teus pais, tua família e tua herança. O Amor à Pátria é o apego que temos pelos nossos pais, pelo nosso país e por todos aqueles que lá vivem e são nossos irmãos”. 

Tenho orgulho de ser brasileiro e de ter concorrido para a derrota do fascismo.

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