Temperaturas mais elevadas desafiam a saúde • Tiago Queiroz/Estadão

Os desafios impostos pelas mudanças climáticas abrangem – e ameaçam – não apenas um grupo ou determinada faixa etária. Da poluição que aumenta o risco de baixo peso ao nascer e de desenvolvimento de câncer nas décadas seguintes, até as altas temperaturas que favorecem a desidratação na terceira idade, todos estão sujeitos aos impactos da crise climática ao longo da vida.

Alguns, porém, podem sofrer ainda mais, alertam especialistas ouvidos pelo Estadão. É o caso das pessoas continuamente expostas à poluição e dos habitantes de países pobres, sem tantos recursos para lidar com os prejuízos de fenômenos extremos.

Mas o que fazer em um cenário assim? A série Era do Clima discutiu essa questão e trouxe algumas respostas sobre como cuidar da saúde individual e planetária. Relembre abaixo.

Poluição e doenças

● Com o agravamento da crise climática e as temperaturas extremas, a concentração de poluentes na atmosfera aumenta, o que contribui para o aparecimento de doenças. Mas além dos danos ao sistema respiratório, com maior prevalência de asma, bronquite e câncer de pulmão, a ciência aponta outros problemas.

A poluição eleva o risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC); aumenta a probabilidade de demência; piora eventos de dor em pessoas com esclerose múltipla; aumenta as chances de câncer de bexiga e esôfago; e pode levar ao parto prematuro e baixo peso do bebê.

Bruno Escolastico/Adobe Stock

No geral, o risco de morrer por doenças respiratórias e cardiovasculares é mais alto conforme a quantidade de poluentes na atmosfera aumenta — o que significa que, quanto mais poluída a cidade, menor a expectativa de vida de seus habitantes.

“Onde respiramos mais poluição hoje em São Paulo? No trânsito. E quem fica mais tempo no trânsito? As pessoas mais pobres, que estão num corredor de tráfego por horas e recebem uma dose maior de poluentes porque a concentração nesse ambiente é particularmente mais elevada.”
-Paulo Saldiva,patologista e professor da Faculdade de Medicina da USP

Efeitos do calor

● Além de favorecer o acúmulo de poluentes na atmosfera, o calor está associado ao aparecimento e à disseminação de patógenos. No total, foram 30 novos agentes infecciosos só nas últimas três décadas. Nesse cenário, a proliferação de vetores, como o mosquito Aedes aegypti, também é preocupante.
sdecoret/Adobe Stock

Há ainda os riscos de desidratação durante as ondas de calor cada vez mais frequentes, o estresse que comunidades mais vulneráveis enfrentam com eventos extremos de seca e a provável falta de alimentos — segundo estimativas, a mudança climática pode aumentar o risco de fome e desnutrição para mais de 20% em 2050.

Impacto para idosos
● Os idosos compõem um dos grupos mais vulneráveis às temperaturas extremas. Devido a alterações nos mecanismos de termorregulação, eles transpiram menos, sentem menos sede e têm menos músculos na composição corporal, o que faz com que sintam mais frio.
Rainer Fuhrmann/Adobe Stock

Como não produzem mais tantos anticorpos, também são suscetíveis a quadros infecciosos e ao agravamento deles. Por isso, em ondas de calor ou de frio, enfrentam risco elevado de internações e mortalidade.

Há, contudo, mecanismos para garantir um envelhecimento saudável mesmo em um cenário climático desfavorável. Vacinação, alimentação saudável, prática de atividade física e hidratação adequada são os maiores aliados desse grupo.

Custos de adaptação

● O patologista Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP, afirma que as mudanças climáticas já matam prematuramente as pessoas mais vulneráveis a variações de temperatura, como idosos e crianças. “É como se estivéssemos em um tubo de ensaio, aumentando a temperatura e contando quantas pessoas morrem ou adoecem.”
Marcelo Chello/Estadão
“A grosso modo, os países mais ricos terão mais mecanismos de defesa contra isso, e você vai incorporar à seleção natural um componente socioeconômico, que não é biológico. Possivelmente, o saldo bancário e o CEP vão contar mais que os genes.”
-Paulo Saldiva,patologista e professor da Faculdade de Medicina da USP

Ele alerta que se proteger contra o calor é mais caro do que do frio e destaca que países mais ricos — que mais contribuíram para as alterações climáticas — sobreviverão melhor à nova realidade.

Alimentação como aliada

● Um dos caminhos de manutenção da saúde e combate às mudanças climáticas é a alimentação. Criada há cinco anos, a dieta da saúde planetária preconiza hortaliças, frutas, feijões, grãos integrais e castanhas e sugere que a carne apareça uma vez por semana no menu. Segundo estudos, a adoção desse modelo alimentar pode prevenir cerca de 11 milhões de mortes, entre adultos, por ano.

REPRODUÇÃO ESTADÃO

A proposta também pode contribuir com o planeta por recomendar modelos sustentáveis para a produção e o consumo de alimentos, como o respeito à sazonalidade e a priorização da comida nativa, produzida localmente; o combate ao desperdício; e a redução da demanda por carne — a criação de gado representa uma fonte de gases de efeito estufa.

“O cardápio deve ser nutricionalmente adequado, economicamente justo e culturalmente aceitável.”
-Lara Natacci,nutricionista e integrante do Entre Solos, pacto global da ONU para sustentabilidade.
Com informações de ESTADÃO
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