
Os problemas no fornecimento de energia elétrica que afetam Manaus e municípios do interior não começaram com a chegada da Âmbar Energia ao Amazonas. Apagões, oscilações, incêndios em postes, falhas na infraestrutura e dificuldades financeiras fazem parte de uma crise acumulada ao longo de anos e que chegou a colocar em discussão a própria continuidade da concessão da Amazonas Energia.
Documentos regulatórios, balanços financeiros e registros de órgãos de fiscalização mostram que a deterioração do sistema ocorreu durante diferentes períodos da distribuidora. Em seu relatório referente a 2025, a própria Amazonas Energia reconheceu a existência de “graves problemas estruturais acumulados ao longo do tempo”.
O histórico ganha relevância diante das recentes discussões sobre a qualidade do serviço e as condições da rede elétrica no estado. A Âmbar Energia assumiu oficialmente o controle da Amazonas Energia em 10 de abril de 2026, herdando uma operação marcada por elevado endividamento e necessidade de investimentos na infraestrutura.
Dívida superou R$ 12 bilhões
Um dos períodos mais delicados ocorreu depois da privatização da Amazonas Energia, em 2018, quando o consórcio formado por Oliveira Energia e Atem assumiu o controle da distribuidora.
A expectativa era de recuperação da companhia, mas os anos seguintes foram marcados pelo aprofundamento das dificuldades econômico-financeiras.
No encerramento de 2025, a Amazonas Energia contabilizava R$ 12,047 bilhões em dívida bruta. Desse total, R$ 11,421 bilhões correspondiam a obrigações com a Eletrobras.
A situação também entrou no radar da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Em documentos regulatórios, a agência apontou que, mesmo depois da desestatização, a concessionária não havia conseguido atingir condições sustentáveis do ponto de vista econômico-financeiro.
Em setembro de 2022, a empresa chegou a receber um termo de intimação relacionado a falhas e transgressões que poderiam resultar em recomendação de caducidade da concessão, diante da perda das condições econômicas necessárias à prestação adequada do serviço.
Tefé teve 477 interrupções em 18 meses
As dificuldades não ficaram restritas aos balanços financeiros.
Em Tefé, a situação levou à atuação do Ministério Público do Amazonas (MP-AM). O órgão contabilizou 477 interrupções no fornecimento de energia em apenas 18 meses, considerando 2024 e o primeiro semestre de 2025.
O volume de ocorrências foi considerado grave e incompatível com os padrões de qualidade exigidos pela Aneel. Diante do cenário, o Ministério Público recomendou investimentos estruturais, apresentação de um cronograma de melhorias e implantação de um plano de contingência para diminuir as interrupções.
Outros problemas atingiram diferentes regiões do estado. Em 2023, a Amazonas Energia informou que 230 postes foram destruídos pelo fogo em 23 municípios, além de danos em aproximadamente 25 quilômetros de linhas de transmissão e distribuição.
Apagões, explosão e incêndios em Manaus
Na capital amazonense, ocorrências envolvendo a infraestrutura elétrica também foram registradas antes da mudança de controle da distribuidora.
Em agosto de 2024, um incêndio atingiu a fiação de um poste no bairro Adrianópolis. Na ocasião, o Corpo de Bombeiros apontou um curto-circuito como possível causa.
Em março de 2025, um apagão de grandes proporções atingiu Manaus e municípios da Região Metropolitana.
Dois meses depois, em maio, uma explosão seguida de incêndio atingiu a Subestação Aparecida, na zona Sul da capital, provocando novas interrupções no fornecimento de energia.
Os episódios reforçaram um cenário de fragilidade operacional que se somava à crise financeira enfrentada pela concessionária.
Âmbar assume concessão e inicia nova fase
Foi nesse contexto que avançou o processo de reestruturação da Amazonas Energia. Em 2024, o Governo Federal adotou medidas destinadas a enfrentar as dificuldades financeiras e operacionais da distribuidora e permitir a reorganização da concessão.
O processo culminou com a mudança de controle da companhia. Em 10 de abril de 2026, a Âmbar Energia assumiu oficialmente a Amazonas Energia, iniciando uma nova etapa da operação.
A nova gestão passou a enfrentar o desafio de recuperar estruturas deterioradas, modernizar a rede e ampliar a capacidade do sistema diante do crescimento da demanda por eletricidade no estado.
Manaus bate recorde de consumo
Esse desafio ocorre justamente quando Manaus registra sucessivos recordes de demanda.
No último dia 14 de setembro, a capital alcançou 1.997,1 megawatts (MW) de demanda às 21h27, estabelecendo um novo recorde histórico. A marca superou os 1.980 MW registrados em agosto de 2026 e ficou bem acima dos 1.861,5 MW medidos em setembro de 2024.
A pressão sobre a infraestrutura também aumenta durante o período de estiagem. Dados do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas apontam que, entre janeiro e 9 de agosto deste ano, Manaus registrou 564 incêndios florestais, contra 133 no mesmo intervalo de 2025 — crescimento de aproximadamente 324%.
No mesmo período de 2026, foram contabilizados ainda 666 incêndios urbanos.
Desafio é recuperar uma rede marcada por problemas históricos
A combinação entre crescimento do consumo, condições climáticas extremas e uma infraestrutura que acumulou dificuldades durante anos dimensiona o desafio enfrentado pela atual concessionária.
A mudança de controle, portanto, não significou a chegada a um sistema em condições ideais. A Âmbar recebeu uma distribuidora com dívida bilionária e uma rede marcada por um histórico de apagões, interrupções, incêndios e necessidade de modernização.
A recuperação da infraestrutura passa agora não apenas pela substituição de cabos, postes e equipamentos, mas pela capacidade de preparar o sistema elétrico para uma Manaus que cresce, consome cada vez mais energia e exige maior segurança e estabilidade no fornecimento.
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