
A menos de dois meses do desfile oficial, o Carnaval de Manaus 2026 entrou no centro de uma grave crise institucional. Em coletiva de imprensa realizada nesta quinta-feira (18), a Liga Independente das Escolas de Samba do Amazonas (Liesa-AM) tornou públicas uma série de denúncias que vão desde ausência total de planejamento até interferência política no julgamento, cenário que, segundo os dirigentes, coloca em risco concreto a realização do maior espetáculo popular do Estado.
Representantes das escolas Aparecida, A Grande Família, Andanças de Ciganos e da Vitória Régia classificaram a condução do processo pela Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa (SEC) como caótica, autoritária e sem diálogo. Mesmo ausente, o presidente da Presidente Vargas manifestou apoio integral às posições da Liesa.
Entre os principais pontos denunciados estão a inexistência de um cronograma oficial, o atraso na definição da Corte do Carnaval, além da tentativa de impor um regulamento elaborado de forma unilateral, sem debate prévio com as escolas e condicionado à liberação de recursos públicos.
Para o presidente da Liesa-AM, Roberto Simonetti, o cenário revela despreparo administrativo e desrespeito às agremiações.
“Estamos vendo um Carnaval sendo empurrado para o abismo. Não existe organização, não existe diálogo e não existe responsabilidade com quem trabalha o ano inteiro para colocar esse espetáculo na avenida. As escolas não vão assinar regulamento imposto”, afirmou.
Simonetti também criticou duramente o que classificou como ingerência política em um concurso que deveria ser técnico.
“Quando o poder público interfere na regra do jogo e na escolha de jurados, o desfile deixa de ser técnico e passa a ser político. Isso destrói a credibilidade do Carnaval de Manaus”, alertou.
O tom mais incisivo veio do presidente da A Grande Família, Cleildo Barroso, o Caçula, que questionou a legalidade e a moralidade da exigência de assinatura do regulamento como condição para acesso a parte do repasse financeiro.
“Se o regulamento fosse bom para todas as escolas, ninguém teria problema em assinar. Quando se condiciona recurso público à aceitação de regras impostas, alguma coisa está errada. Queremos o melhor para nossas escolas, mas também para o Carnaval”, declarou.
Já o presidente da Andanças de Ciganos, Vilson Benayon, foi ainda mais duro ao falar sobre a possibilidade de manipulação dos resultados.
“Interferência política no julgamento é fraude moral. Se jurado é escolhido por conveniência política, o resultado já vem decidido antes da escola pisar na avenida”, disparou.
Além do impacto direto sobre as escolas, os dirigentes destacaram que o colapso do planejamento atinge centenas de trabalhadores da cadeia produtiva do Carnaval, como costureiras, aderecistas, músicos, ferreiros, coreógrafos e técnicos, além de prejudicar comunidades inteiras e a economia criativa da capital.
O presidente Duda Pacheco e o vice-presidente da Vitória Régia, Laércio Sampaio, reforçaram que a manutenção do atual cenário representa um retrocesso histórico para o Carnaval de Manaus e pediram medidas imediatas para restabelecer diálogo, transparência e respeito às escolas.
Ao final da coletiva, a Liesa-AM foi categórica: sem mudança de postura da gestão cultural, retomada do diálogo e garantia de autonomia do concurso, o Carnaval de Manaus 2026 corre sério risco de não acontecer, com danos profundos à cultura popular do Amazonas.
O que diz a Secretaria de Cultura
Em nota, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (SEC) informou que, desde setembro de 2025, vem realizando reuniões com os presidentes das oito escolas de samba do Grupo Especial de Manaus com o objetivo de definir coordenação, direção, regulamento e calendário do Carnaval na Floresta 2026.
Segundo a pasta, apesar das tratativas conduzidas, persistem divergências entre as próprias agremiações, o que tem impedido avanços nas etapas necessárias à organização do evento. A SEC afirma que, em reunião realizada no dia 25 de novembro, o secretário Caio André reiterou a urgência de uma decisão consensual por parte das escolas, o que não teria ocorrido.
A Secretaria também nega que esteja impondo regulamento às agremiações. De acordo com a nota, o regulamento citado foi elaborado em reunião pelas próprias escolas, mas, na data prevista para assinatura, apenas três presidentes compareceram, o que teria evidenciado a falta de consenso no grupo.
Por fim, a SEC reforça que permanece à disposição para dar continuidade às ações de fomento e à operacionalização do Carnaval 2026 assim que as escolas do Grupo Especial apresentarem as definições necessárias. A pasta destaca ainda que sua atuação é pautada pelo zelo com o erário, afirmando ser inviável o repasse de recursos públicos enquanto não houver diretrizes formalmente estabelecidas para a realização do evento.







