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Os desafios de comida se consolidaram como um dos fenômenos de maior engajamento nas redes sociais — hambúrgueres empilhados, milk-shakes em grandes volumes, coxinhas gigantes e pratos extremamente apimentados acumulam milhões de visualizações. Por trás do entretenimento, porém, especialistas alertam para riscos sérios à saúde.

Os limites do estômago

O gastroenterologista Rafael Oliveira Ximenes, do Hospital Israelita Einstein em Goiânia, explica que o estômago humano não foi projetado para volumes ilimitados. “O estômago consegue acomodar entre 1 e 1,5 litro de alimento sem causar lesões ou desconforto”, afirma. Em situações extremas, o órgão pode se expandir para até 4 litros, mas com consequências.

“Quando esse limite é ultrapassado, surgem sintomas como estufamento intenso, dor abdominal, náusea, refluxo e vômito”, alerta o médico. O estiramento excessivo pode ainda comprimir o diafragma e os pulmões, dificultando a respiração, além de provocar lesões na transição entre o estômago e o esôfago, com risco de sangramento digestivo e broncoaspiração — quando o alimento é aspirado para os pulmões durante o vômito.

Outro fator de risco é a velocidade da ingestão. A sensação de saciedade leva cerca de 20 minutos para ocorrer. “Na ingestão rápida, pode não dar tempo de o estômago avisar o cérebro de que já está cheio, favorecendo o exagero”, observa Ximenes.

Quando o exagero vira emergência

Em casos raros, mas graves, a distensão extrema pode reduzir o fluxo de sangue para a parede do estômago — quadro conhecido como isquemia — ou causar perfuração do órgão, levando a inflamação intensa, infecção generalizada e até sepse, condição potencialmente fatal.

Os sinais de alerta incluem:

  • Dor abdominal intensa ou progressiva
  • Abdômen inchado e endurecido
  • Vômitos persistentes ou com sangue
  • Fezes pretas
  • Falta de ar, tontura, palidez e queda de pressão
  • Confusão mental

Diante desses sintomas, a recomendação é buscar atendimento médico imediato. Em casos de mal-estar leve, a orientação é interromper a ingestão e repousar com o tronco elevado entre 30° e 45°, posição que reduz o risco de aspiração pulmonar.

Ximenes alerta ainda para um grupo de maior vulnerabilidade: “Pessoas com cirurgias gástricas prévias, como a cirurgia para doença do refluxo, podem não conseguir vomitar, aumentando o risco de complicações”.

Mortes associadas a desafios de comida

Casos fatais ligados a esse tipo de desafio ganharam repercussão internacional. Em dezembro de 2025, um homem de 37 anos morreu durante uma gincana no interior de São Paulo ao se engasgar tentando comer grandes pedaços de melancia rapidamente. A causa foi asfixia por obstrução das vias aéreas, seguida de parada cardiorrespiratória.

Na Grécia, um jovem de 22 anos morreu após tentar engolir um hambúrguer inteiro sem mastigar em uma aposta com amigos, sofrendo danos cerebrais graves por falta de oxigênio. Em 2023, nos Estados Unidos, um adolescente de 14 anos morreu após participar do One Chip Challenge — desafio com um salgadinho extremamente apimentado. A alta concentração de capsaicina, substância presente na pimenta, provocou parada cardiorrespiratória em razão de uma condição cardíaca congênita.

A visão de quem faz disso profissão

O influenciador Ricardo Corbucci, do canal CorbucciEats, com mais de 12 milhões de seguidores, é um dos principais nomes dos desafios de comida no Brasil. Ele conta que sua trajetória começou em 2016, após enfrentar obesidade e episódios de descontrole alimentar, quando percebeu ter capacidade de ingerir grandes volumes de alimentos.

Hoje, a preparação é rigorosa. “Antes eu fazia dilatação do estômago com vegetais e líquidos. Agora prefiro jejum prolongado antes e depois dos desafios, entre 16 e 20 horas sem comer”, relata. Entre os efeitos colaterais frequentes, ele cita desarranjo intestinal, náuseas e sintomas de hiperglicemia nos desafios com doces.

Para compensar, Corbucci afirma manter uma rotina de alimentação saudável fora das gravações, praticar musculação e aeróbica diariamente e realizar acompanhamento médico regular com exames e check-ups.

O influenciador deixa um alerta direto ao público: “Quem é profissional tem uma equipe multidisciplinar, minimizando riscos e tomando decisões caso imprevistos aconteçam. Não vale a pena correr riscos não monitorados apenas por diversão”.

Com informações de Metrópoles

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