O funcionamento do lixão a céu aberto de Iranduba, no Ramal do Creuza, deixou de ser apenas alvo de críticas e passou a ser tratado oficialmente como uma situação insustentável pelo próprio Governo do Amazonas. Um Plano de Recuperação de Área Degradada (PRAD), elaborado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb), determina a interrupção imediata do despejo de resíduos no local e reconhece que a área opera há anos em desacordo com exigências ambientais, sanitárias e legais.

O documento descreve um cenário de degradação severa provocado pela destinação irregular e contínua de lixo urbano, sem qualquer estrutura adequada para contenção de danos. Entre os problemas apontados estão a ausência de impermeabilização do solo, a falta de drenagem de chorume e a inexistência de mecanismos de controle sanitário, o que elevou o risco de contaminação do solo, da água subterrânea e do ar.

A conclusão do plano é direta: o uso da área para descarte de resíduos precisa ser encerrado de forma definitiva. Para isso, a Sedurb prevê o bloqueio das atividades no lixão, cercamento do terreno, restrição de acesso e fiscalização permanente, justamente para evitar que o espaço continue sendo utilizado de maneira clandestina. O teor do documento expõe a incapacidade do município de oferecer, ao longo dos anos, uma alternativa legal e ambientalmente segura para o destino do lixo produzido em Iranduba.

Embora a Prefeitura tenha apresentado o PRAD como se fosse um projeto de implantação de aterro sanitário, a proposta técnica trata, na verdade, da recuperação de uma área já profundamente comprometida. A execução deve contar com aproximadamente R$ 5 milhões em recursos liberados pela Caixa Econômica Federal, mas até agora não há licitação aberta nem data definida para o começo das intervenções.

O material técnico aponta ainda que o lixão se tornou foco permanente de vetores transmissores de doenças, como mosquitos, moscas e roedores. Esse ambiente, segundo o plano, aumenta a exposição da população a problemas como arboviroses, leptospirose e infecções gastrointestinais, o que reforça o caráter emergencial das medidas recomendadas.

Para lidar com a enorme quantidade de resíduos já acumulada, a solução proposta não é remover todo o material, mas reorganizá-lo tecnicamente dentro do próprio terreno. O PRAD prevê remanejamento, compactação e confinamento dos resíduos, com reconfiguração da área para formar uma massa mais estável e menos sujeita a deslizamentos, incêndios e produção excessiva de chorume. Em seguida, a área deverá receber cobertura com solo argiloso, além de estruturas para drenagem da água da chuva e liberação controlada de gases.

Outro aspecto considerado crítico no documento é a situação dos catadores que atuam informalmente no local. O plano reconhece que esses trabalhadores estão submetidos a condições degradantes, sem proteção, sem formalização e sem garantia de renda segura. Por isso, recomenda ações voltadas à inclusão social, capacitação profissional e criação de alternativas econômicas, para que o fechamento do lixão não agrave ainda mais a vulnerabilidade dessas pessoas.

Mesmo com o conjunto de medidas previstas, a própria Sedurb deixa claro que a recuperação da área depende de compromisso institucional efetivo por parte da Prefeitura de Iranduba. Sem monitoramento ambiental contínuo, fiscalização rigorosa e integração com a política municipal de resíduos sólidos, o risco de reativação do depósito irregular permanece.

Na prática, o PRAD funciona como um documento oficial que confirma a gravidade da situação e transforma o encerramento do lixão em obrigação técnica e legal. Mais do que uma recomendação, o fim do descarte irregular no Ramal do Creuza passa a ser uma exigência diante dos impactos ambientais, sanitários e sociais acumulados ao longo de décadas.

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