
Idealizado pela multiartista e pesquisadora amazonense ISIS de Manaus, o projeto “Asé Ori” terá sua primeira mostra no dia 24 de abril, às 19h, na Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas – ESET/EA (UEA). A performance, que contará com intérprete de Libras, será seguida de rodas de conversa, nas quais os convidados e ISIS e a equipe debaterão os temas do espetáculo, as técnicas corporais e os processos de investigação artística.
A obra é, ao mesmo tempo, produto e metodologia de uma pesquisa de iniciação científica (PIBIQ/CNPq), vinculada ao bacharelado em Teatro da UEA. Intitulada “Território, ancestralidade e artes cênicas na construção de identidade a partir da criação cênica Asé Ori”, a investigação usa o próprio espetáculo para compreender a formação da identidade cultural.
De acordo com ISIS de Manaus, o projeto se configura como o seu primeiro trabalho profissional no teatro e também perpassa a experiência a de dois intercâmbios realizados pela artista em Salvador (novembro/2024 e julho-agosto/2025), onde estudou dança dos orixás e dança afro. Porém, mais do que técnicas, a vivência na capital baiana representou um reencontro afetivo e ancestral.
“Fiquei mais de 20 anos sem ir a Salvador, onde vivi minha primeira infância. Lá tenho familiares paternos. Foi uma reconexão com raízes, lugares, comidas, afetos. E também a criação de novas relações, como adulta – conhecer artistas, bares, festas”, explicou.

A artista destaca o conceito que nomeia sua pesquisa, que é a “Encruzilhada entre Norte e Nordeste” – um diálogo entre as culturas amazônica e baiana, suas semelhanças e diferenças, integrando territorialidade, espiritualidade (como o candomblé) e uma noção ampliada de ancestralidade consanguínea ou não. “São as relações que a gente encontra pelo caminho, as pessoas que congregamos e escolhemos como família”, complementa.
Foto-performance e construção estética
O projeto “Asé Ori” também é uma obra multimídia. Em Salvador, a artista realizou um ensaio de foto-performance com a fotógrafa Elewa Pitaguary, com registros que unem elementos tradicionais dos orixás (como Oxóssi e Oxum) a ícones da cultura periférica.
“Foi pensando nessa estética que comecei a juntar as coisas tradicionais dos orixás. São culturas que estão inseridas no meu corpo, que fazem parte da minha história – não são escolhas aleatórias”, pontua a artista.
É importante citar ainda que a construção estética do espetáculo parte também da linguagem visual que a artista vem desenvolvendo há alguns anos: o afrofuturismo e o neoregionalismo – um termo usado por artistas amazônicos, que representa o regionalismo amazônico de forma não estereotipada, onde a artista em suas obras, mistura o regionalismo com a cultura afrodiaspórica.
“Essa construção estética, que traz a minha linguagem, une o tradicional dos orixás com os elementos utilizados pela juventude da periferia, como óculos, boné, a sandália Kenner e outros elementos dessa cultura”, explica ISIS.
Dessa forma, o espetáculo se constrói enquanto uma obra autobiográfica de natureza performática que mescla teatro, memória afetiva e espiritualidade. Trata-se de uma celebração cênica que homenageia sua mãe, seus orixás e a religião do candomblé, ao mesmo tempo em que narra sua própria trajetória de vida.
Próximo ensaio aberto
No dia 27 de abril, será a vez dos estudantes da Escola Estadual Sebastião Filho Loureiro receberem a segunda apresentação do ensaio aberto, que tem a duração de até 40 minutos. O ensaio também contará com intérprete de libras e acontece a partir das 15h e é totalmente gratuito.
Apoio e equipe técnica
O projeto é uma realização da Pedra de Fogo Produções. O ensaio aberto é codirigido por ISIS de Manaus e pela Correnteza Braba; já a preparação corporal é feita por Andira Angeli e a produção geral é de Regina de Benguela.
Além disso, a iniciativa tem os apoios do Grupo TEU, do Instituto de Pesquisa Tabihuni, do Café Preto Produções Artísticas, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), do Governo Federal, do Ministério da Cultura, da Prefeitura de Manaus, da Concultura Manaus, do Governo do Estado do Amazonas e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
O projeto foi contemplado pelo edital “N°006/2023 – Bolsas Culturais Manaus” (Concultura) e posteriormente pelo “Macro de Chamamento Público N°002/2024” (Concultura), via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o projeto viabilizou a imersão da artista na Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), instituição de referência nacional no ensino das danças dos Orixás
Texto: Karine Pantoja







