
Os Estados Unidos afirmaram ter concluído um acordo de cooperação em energia nuclear com a Arábia Saudita, iniciativa que cria a base jurídica para uma parceria de longo prazo no desenvolvimento do programa atômico civil saudita. Segundo a Reuters, o entendimento também pode abrir espaço para projetos bilionários de empresas estadunidenses no reino.
O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, e o ministro saudita da Energia, príncipe Abdulaziz bin Salman, assinaram o pacto após anos de negociações entre Washington e Riad, informou a Reuters. Os dois governos também estabeleceram um acordo bilateral de salvaguardas para disciplinar o uso da tecnologia nuclear.
A administração do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresenta o acordo como um marco capaz de fortalecer a relação estratégica com a Arábia Saudita, ampliar a presença comercial norte-americana no Oriente Médio e garantir espaço para a indústria nuclear dos EUA em futuros projetos sauditas.
Parceria de longo prazo e negócios bilionários
O acordo oferece a estrutura necessária para que empresas dos Estados Unidos participem da construção de reatores, do fornecimento de tecnologia, da formação de profissionais e de outras etapas da indústria nuclear saudita.
Washington também busca impedir que fornecedores da China ou da Rússia ocupem posição dominante no programa atômico do reino. A Arábia Saudita avalia diferentes parceiros internacionais para desenvolver sua infraestrutura nuclear, o que atribui ao entendimento com os Estados Unidos relevância econômica e geopolítica.
O Departamento de Energia norte-americano já havia anunciado, em novembro de 2025, a conclusão das negociações sobre a cooperação nuclear civil. Na ocasião, os dois países defenderam o uso de tecnologia dos Estados Unidos e reafirmaram compromissos com a não proliferação.
O novo pacto avança além das declarações preliminares e estabelece condições legais para transferências de tecnologia, equipamentos e conhecimento técnico. A legislação norte-americana exige esse tipo de instrumento antes que empresas dos Estados Unidos realizem cooperação nuclear relevante com outro país.
Enriquecimento de urânio gera preocupação
O ponto mais sensível envolve a possibilidade de a Arábia Saudita enriquecer urânio em seu próprio território. Segundo fontes ouvidas pela Reuters, o acordo cria uma via legal para a cooperação no ciclo do combustível nuclear, mas não obriga Washington a fornecer tecnologia de enriquecimento ao reino.
O texto poderá permitir que os dois países estudem a viabilidade de uma instalação de enriquecimento em território saudita. Caso os governos aprovem o projeto, empresas norte-americanas poderiam participar da construção e da operação da unidade sob regras específicas de controle.
O enriquecimento em níveis baixos permite a produção de combustível para reatores civis. O mesmo processo, quando levado a concentrações muito mais elevadas, também pode gerar material usado em armamentos, motivo pelo qual o tema desperta resistência entre parlamentares, especialistas em segurança e governos da região.
A Reuters informou que o pacto não inclui a chamada regra de “padrão-ouro”, adotada em outros acordos norte-americanos, que proíbe expressamente o enriquecimento de urânio e o reprocessamento de combustível nuclear usado. As fontes também apontaram a ausência do Protocolo Adicional da Agência Internacional de Energia Atômica, mecanismo que amplia os poderes de inspeção do órgão.
Congresso analisará o acordo
O governo Trump deverá encaminhar o pacto ao Congresso dos Estados Unidos. Deputados e senadores poderão examinar as regras de fiscalização, as limitações impostas à Arábia Saudita e os riscos associados ao possível domínio do ciclo do combustível nuclear.
A proposta pode enfrentar oposição de parlamentares que defendem controles mais rígidos. Parte do Congresso teme que um programa saudita com capacidade de enriquecimento estimule outros países do Oriente Médio a exigir condições semelhantes.
O debate ganha peso diante das tensões envolvendo o programa nuclear do Irã. Críticos questionam a coerência de Washington ao aceitar uma possível estrutura de enriquecimento na Arábia Saudita enquanto exige que Teerã abandone essa capacidade.
Riad busca diversificar a matriz energética
A Arábia Saudita sustenta que pretende usar a energia nuclear para gerar eletricidade, reduzir o consumo interno de combustíveis fósseis e reservar uma parcela maior de sua produção de petróleo para exportação. O projeto integra a estratégia saudita de diversificação econômica e energética.
O reino também possui reservas de minério de urânio e demonstra interesse em desenvolver diferentes etapas da cadeia nuclear. Essa ambição transforma as salvaguardas e os mecanismos de inspeção em elementos centrais para a aprovação política do acordo.
Mesmo com as controvérsias, Washington considera a parceria uma oportunidade para ampliar a influência norte-americana sobre o programa saudita. Riad, por sua vez, avança no objetivo de construir uma indústria nuclear civil com acesso a tecnologia, financiamento e experiência internacional.
Com informações do Brasil 247.







