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Em um cenário complexo e de crescente tensão no norte da Síria, o exército sírio assumiu o controle de vastas áreas, deslocando as Forças Democráticas Sírias (FDS), lideradas pelos curdos, de territórios que controlavam há mais de uma década. Este avanço militar, ocorrido nesse sábado (17/1), sucede um decreto do presidente do governo interino da Síria, Ahmed al-Sharaa, que declarou o curdo como “língua nacional” e concedeu reconhecimento oficial à minoria étnica.

A situação na Síria permanece tensa desde a queda do regime de Assad, e os eventos recentes são um desdobramento direto dos acordos e conflitos que marcam a região. Em março de 2025, o governo sírio e as FDS assinaram um acordo que previa a integração dos combatentes das FDS às forças governamentais e a transferência de territórios curdos para o controle central. No entanto, confrontos persistiram, especialmente na região de Aleppo. Conforme o contexto, em 5 de janeiro de 2026, as Forças Democráticas Sírias já haviam acusado o governo de Ahmed al-Sharaa de bombardear posições das FDS e civis em Deir Hafer, com o apoio de facções alinhadas a Damasco. Agora, o exército sírio confirmou a tomada de Deir Hafer, indicando uma escalada da ofensiva.

Expansão Militar Síria e Vítimas

Na semana passada, o exército sírio já havia expulsado as forças curdas de dois bairros de Aleppo, a maior cidade da Síria. Neste sábado, o controle se estendeu para uma área a leste da cidade. As forças sírias também assumiram o controle das cidades de Maskana e Deir Hafer, bem como de uma base aérea em Jarrah e um aeroporto militar em Tabqa, anteriormente sob comando do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), além de dois campos de petróleo na região.

Damasco informou a morte de quatro soldados nos combates, enquanto as forças curdas relataram diversas baixas. Ambos os lados trocam acusações sobre violações de acordos, aumentando a instabilidade.

Alegações de Violação de Acordo pelas FDS

Após a retirada dos combatentes das FDS de uma área a oeste do rio Eufrates, o chefe das FDS, Mazloum Abdi, acusou as tropas sírias de violarem o acordo ao avançarem ainda mais para o leste, em direção a cidades e campos de petróleo que, segundo ele, não faziam parte do pacto. Abdi declarou que Damasco “violou os acordos recentes e traiu nossas forças durante a implementação das provisões de retirada”, destacando que os combates ao sul de Tabqa estavam “fora do escopo do acordo”.

Em contrapartida, o exército sírio exigiu que a liderança das FDS “cumprisse imediatamente seus compromissos anunciados e se retirasse completamente para o leste do rio Eufrates”.

Reação Internacional e Contexto Geopolítico

As FDS controlam vastas áreas ricas em petróleo no norte e nordeste da Síria, conquistadas durante a guerra civil e a luta contra o grupo Estado Islâmico. Por anos, foram parceiras dos EUA no combate ao terrorismo, embora Ancara as considere um grupo terrorista devido à ligação com insurgentes curdos separatistas. Washington, atualmente, também oferece suporte às novas autoridades sírias.

O Comando Central dos EUA emitiu um comunicado no sábado, pedindo “às forças do governo sírio que cessem qualquer ação ofensiva nas áreas entre Aleppo e al-Tabqa”. O presidente da França, Emmanuel Macron, e o presidente do Curdistão iraquiano, Nechirvan Barzani, também solicitaram um cessar-fogo. Os receios curdos intensificaram-se devido a episódios de violência sectária no ano passado, com mortes de alauítas e drusos.

Decreto Presidencial: Entre o Reconhecimento e a Consolidação de Poder

Os combates ocorrem após o governo sírio reconhecer formalmente os direitos curdos, pela primeira vez desde a independência do país em 1946. O decreto presidencial de sexta-feira afirmou que a minoria curda é “parte essencial e integral” da Síria, concedeu nacionalidade a todos os curdos (20% dos quais haviam sido privados dela) e tornou o curdo uma “língua nacional”.

A administração curda no nordeste sírio classificou o decreto como “um primeiro passo”, mas que “não satisfaz as aspirações e esperanças do povo sírio”, defendendo que os direitos devem ser protegidos por constituições permanentes, e não por decretos temporários.

Nanar Hawach, analista sênior do International Crisis Group, interpretou o decreto como uma estratégia de Damasco para “oferecer concessões culturais enquanto consolida o controle militar”, sem atender às demandas de autogoverno do nordeste. Segundo o analista, o governo sírio parece buscar “criar uma divisão entre civis curdos e as forças armadas que os governam há uma década”.

Com informações de Metrópoles

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