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Uma nova pesquisa conduzida por cientistas da University College London (UCL) sugere uma mudança de paradigma na compreensão do Alzheimer: parte dos problemas de memória pode ter origem nos momentos de repouso, quando o cérebro deveria estar consolidando o aprendizado.

O estudo, publicado nesta quinta-feira (29/1) na revista científica Current Biology, aponta que, em cérebros afetados pela doença, o processo de fixação de memórias recentes acontece de forma desordenada e caótica, impedindo que as lembranças se estabilizem.

O Que Acontece Enquanto Descansamos?

Para entender a falha, é preciso compreender o funcionamento normal do cérebro. A pesquisadora Sarah Shipley, da área de Biologia Celular da UCL, explica que o repouso é fundamental para a manutenção das memórias.

Durante o descanso, o hipocampo (região ligada ao aprendizado) realiza um processo chamado de “repetição” (replay). Neurônios específicos, conhecidos como células de lugar, disparam na mesma sequência em que foram ativados quando a pessoa (ou animal) percorreu um caminho ou viveu uma experiência, reforçando aquela memória.

A Descoberta: O Cérebro “Tenta”, mas Falha

Ao analisar camundongos geneticamente modificados para desenvolver placas amiloides (marca biológica do Alzheimer), os pesquisadores notaram algo surpreendente:

  1. A Repetição Continua: Os eventos de repetição ocorriam com a mesma frequência que em animais saudáveis. O cérebro não parou de trabalhar.
  2. A Perda de Estrutura: A diferença crucial estava na organização. A atividade das células tornou-se caótica, falhando em reproduzir a sequência correta da experiência vivida.

“Descobrimos uma falha na forma como o cérebro consolida as memórias (…) O que é surpreendente é que os eventos de repetição ainda ocorrem, mas perderam sua estrutura normal. Não é que o cérebro pare de tentar consolidar as memórias. O próprio processo falhou”, detalha o professor Caswell Barry, coautor do trabalho.

Na prática, isso resultou em neurônios instáveis e em um desempenho ruim dos animais em testes de labirinto, indicando que eles não conseguiam reter o mapa mental do ambiente.

Novos Caminhos para Diagnóstico e Tratamento

A descoberta de que essa desorganização ocorre em nível celular abre novas perspectivas para a medicina:

  • Diagnóstico Precoce: Identificar essa falha de “repetição” pode servir como um marcador inicial da doença, antes que danos cerebrais mais amplos ocorram.
  • Novas Terapias: O grupo já investiga se é possível restaurar a ordem desse mecanismo. O foco inicial está na manipulação da acetilcolina, um neurotransmissor que já é alvo de medicamentos atuais, mas que agora pode ser explorado com um objetivo mais específico: reorganizar a consolidação da memória durante o repouso.

Com informações de Metrópoles

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