
A reportagem do Fantástico, exibida neste domingo (3), trouxe novos e contundentes detalhes sobre a morte de Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, ocorrida em novembro de 2025 no Hospital Santa Júlia, em Manaus. A investigação da Polícia Civil concluiu que o menino foi vítima de um “erro médico grosseiro” e morreu após receber uma overdose de adrenalina aplicada diretamente na veia — procedimento considerado inadequado para o caso.
O inquérito aponta que a médica Juliana Brasil Santos, responsável pela prescrição, e a técnica de enfermagem Raísa Bentes Praia, que aplicou a medicação, foram indiciadas por homicídio doloso com dolo eventual. Já os diretores do hospital, Antônio Guilherme Macedo e Edson Sarkis Júnior, foram indiciados por homicídio culposo, em razão de falhas estruturais na unidade.
Benício deu entrada no hospital com sintomas considerados leves, como tosse seca e suspeita de laringite. Mesmo assim, recebeu uma prescrição de três doses de adrenalina intravenosa em curto intervalo de tempo — o que provocou rápida piora do quadro clínico. O menino chegou a relatar que “o coração estava queimando” antes de sofrer sucessivas complicações.
A criança foi levada à UTI, onde sofreu seis paradas cardíacas e morreu cerca de 14 horas após o início do atendimento. Peritos atestaram que o quadro se tornou irreversível devido à quantidade de adrenalina administrada e descartaram falhas nos procedimentos da equipe da UTI.
A investigação também revelou comportamentos considerados incompatíveis com a gravidade da situação. Mensagens extraídas do celular da médica mostram que, enquanto o paciente estava em estado crítico, ela realizava vendas de cosméticos pelo telefone. Para a polícia, a conduta evidencia falta de atenção e comprometimento com o atendimento.
Outro ponto levantado foi a tentativa de atribuir o erro a uma suposta falha no sistema do hospital. No entanto, perícia técnica descartou problemas na plataforma, levando ao indiciamento da médica também por fraude processual e falsidade ideológica, já que ela se apresentava como pediatra sem possuir especialização.
No caso da técnica de enfermagem, depoimentos indicam que ela foi alertada sobre a forma correta de aplicação da adrenalina, mas optou por seguir a prescrição sem realizar a checagem adequada. A conduta foi considerada determinante para o desfecho fatal.
O inquérito também apontou falhas estruturais graves, como a ausência de número suficiente de profissionais de enfermagem e a falta de farmacêutico para validar a prescrição — fatores que embasaram o indiciamento dos diretores da unidade.
Defesas e posicionamento
Ao Fantástico, a defesa da médica Juliana Brasil Santos afirmou que o sistema de prescrição do hospital apresentou falhas, sustentando que o vídeo apresentado à Justiça é verdadeiro e que houve problemas no procedimento de intubação. Sobre as mensagens de venda de produtos, o advogado declarou que, naquele momento, a médica já não era responsável direta pelo paciente. Questionado se ela teve participação na morte de Benício, respondeu de forma direta: “Não”.
Já a defesa da técnica de enfermagem Raísa Bentes Praia argumenta que a situação poderia ter sido evitada com uma checagem simples. Segundo o advogado, “31 passos” até o consultório da médica teriam sido suficientes para confirmar a prescrição. A defesa informou ainda que todas as explicações serão apresentadas nos autos do processo e que Raísa está suspensa da profissão, sem intenção de retornar à atividade.
Sobre o indiciamento dos diretores, a investigação concluiu que a estrutura do hospital contribuiu para o erro, devido à falta de profissionais e mecanismos de controle. Em nota, a assessoria do Hospital Santa Júlia afirmou que a instituição ainda não foi oficialmente comunicada sobre o indiciamento, mas que permanece à disposição das autoridades e reforçou o compromisso com a segurança dos pacientes e a apuração dos fatos.
O caso segue repercutindo nacionalmente e reacende o debate sobre segurança hospitalar, protocolos de atendimento e responsabilidade de profissionais e instituições de saúde, especialmente em casos pediátricos.







