Na minha juventude, ela chegava em junho. Este ano, a friagem veio mais cedo e obrigou os manauaras à busca de mofados casacos, na maioria do tempo inúteis, por motivos óbvios. Minha mulher, que é do ramo, há de saber a explicação para o fenômeno. Temos o “El niño” e a “La niña”, que vão acontecendo, salvo engano, lá pelos Andes, com reflexos indiscutíveis aqui na “Paris dos trópicos”. Para mim, caboclo nascido às margens do igarapé de São Raimundo, qualquer coisa abaixo dos 25° Celsius já parece uma caricatura da Sibéria. Apesar disso, e por incrível que pareça, consegui sobreviver ao frio de Moscou, em novembro, onde não há balalaica que logre amenizar um vento que vai atingir os ossos. Bem por isso, talvez, a friagem (que termo delicioso! Sugiro ao professor Sérgio Freire que o incorpore à próxima edição de seu dicionário de amazonês) não me causou muito incômodo. Os joelhos do velho não enrijeceram nem o esqueleto se sentiu mais próximo da cova.

Mas, se a alteração climática restou assim inofensiva, o mesmo já não posso dizer da ignorância e da estupidez que vi noticiadas na imprensa e nas redes sociais. Doeu profundamente neste coração infartado a agressão ideológica e física de que foram vítimas professores e alunos da Universidade Federal do Amazonas. A jornalista Ivânia Vieira e o professor José Seráfico de Carvalho já dissecaram o incidente, com suas penas privilegiadas. Transmito aqui, pois e somente, a minha vetusta indignação contra os que, desprovidos de ideias, buscam a violência como forma suprema de argumentação.

A coisa transcende o maniqueísmo esquerda/direita. Pouco importa o espectro ideológico em que se coloca a pessoa. Interessa é ter presente que o diálogo é a única forma de estabelecer a convivência pacífica. Chega a ser elementarmente dialético, na medida em que, sendo uma coisa ela mesma e o seu contrário, do confronto entre os dois fatores há de surgir, de forma inevitável, a supremacia do que representa o novo.

Não estou fazendo filosofia de beira de igarapé. Longe disso. Busco apenas fazer presente a evidência de que é preciso muita burrice para achar que o comportamento de brutamontes (físico e/ou ideológico) seja o caminho viável para fazer prevalecer um ponto de vista, seja ele qual for.

Segundo me foi dado inferir, o episódio teve como causa primeira a existência de material de conteúdo marxista, no recinto da Universidade. A ser verdade, a coisa ganha dimensões apocalípticas de estupidez porque adentra, pura e simplesmente, o terreno da patrulha ideológica, tão comum e tão simpática aos regimes de orientação fascista.

Vejamos. Como o próprio nome indica, e não escaparia nem ao Bolsonaro nem ao Conselheiro Acácio, uma universidade é um ambiente em que as coisas têm que ser vistas por uma visão universal. Sendo, como é, o conhecimento humano único e indivisível, compete às instituições do tipo, respeitadas as especificidades de cada ramo didático do saber, lançar sobre cada um deles o olhar da universalidade, até por uma questão de coerência.

Assim, não se há de estranhar que um professor (ou um aluno) esteja um dia às voltas com a “Minha Luta”, de Hitler, e, na semana seguinte, seja visto manuseando “O Capital”, de Marx. São antitéticos e, por isso mesmo, têm que ser confrontados, eis que nenhum outro método poderá estabelecer uma escolha. Já li, por exemplo, “O Martelo das Feiticeiras” (“Malleus Malleficarum”, em latim), nem por isso saí pelo mundo pregando ou aplicando os métodos que os piedosos monges ensinavam para queimar gente ao vivo e em cores.

Tudo o que me obriga a concluir: a horda que invadiu a UFAM há de ser um aglomerado de indigentes intelectuais. Sugiro aos seus integrantes que, caso saibam ler, façam um esforço e adquiram pelo menos “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exuppery. Há excelentes traduções em português. Não vão conseguir emergir das trevas, mas, no mínimo, estarão bem encaminhados para a aquisição de cultura de miss de passarela.

Tenham a santa paciência.

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