Manaus (AM) — Uma língua preserva histórias, conhecimentos, modos de viver e a identidade de um povo. No dia 22 de outubro, a Gramática da Língua Kambeba ganhará uma edição impressa, ampliando o acesso a esse patrimônio cultural e fortalecendo a transmissão dos conhecimentos ancestrais às novas gerações.

Desenvolvida pelo professor Raimundo

Cruz da Silva Kambeba e pelo professor e doutor em Linguística Ademar dos Santos Lima, a obra registra e valoriza a língua e os conhecimentos do povo Kambeba, também conhecido como Omágua, historicamente associado aos povos das águas da Amazônia.

A iniciativa de impressão e entrega é da jovem embaixadora de impacto social Joana Gastaldi, em parceria com a Amazônia B, o Instituto Ecoleta e a comunidade indígena Três Unidos, localizada às margens do rio Cuieiras, no Amazonas.

A preservação das línguas indígenas é fundamental para a continuidade dos conhecimentos tradicionais e da identidade dos povos originários. Essa importância é reforçada pela Década Internacional das Línguas Indígenas (2022–2032), que alerta para o risco de desaparecimento desses idiomas e incentiva ações de documentação, revitalização e educação linguística. Nesse contexto, a edição impressa da gramática contribui para a valorização da cultura Kambeba e o acesso das novas gerações à própria história.

Para o professor Raimundo Cruz da Silva Kambeba, a obra também representa uma ferramenta para fortalecer a educação intercultural, aproximando os conhecimentos tradicionais dos conteúdos ensinados nas escolas.

“A educação intercultural é muito importante porque permite que os nossos conhecimentos tradicionais caminhem junto com aquilo que os jovens aprendem na escola. Quando valorizamos a nossa língua, a nossa cultura e os nossos saberes dentro da educação, enriquecemos a formação dessas crianças e desses jovens. Eles precisam conhecer o mundo e os novos conhecimentos, mas também precisam conhecer e valorizar a própria história e a identidade do seu povo”, destaca Raimundo Kambeba.

A valorização da cultura amazônica também se relaciona à bioeconomia, à conservação ambiental e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para Bellmond Viga, diretor executivo da Amazônia B, reconhecer os conhecimentos tradicionais é essencial para compreender o potencial da região e construir um modelo de desenvolvimento que tenha os próprios amazônidas como protagonistas.

“A gente precisa reconhecer a nossa própria história para compreender a potência do território onde vivemos. Quando o amazonense conhece e reconhece sua cultura e os saberes que naturalmente já herdamos, ele passa a olhar de outra forma para os seus rios, sua floresta e sua terra. E é justamente a partir desse reconhecimento que conseguimos compreender melhor a bioeconomia, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e as oportunidades que estão moldando a nova economia mundial. Precisamos unir o conhecimento ancestral ao conhecimento do século 21, para que o amazônida possa ocupar esse território com mais presença, consciência e protagonismo, no aqui e agora e também no futuro”, destaca.

A Amazônia B defende que o desenvolvimento territorial sustentável depende também do desenvolvimento humano. Iniciativas de educação intercultural e valorização cultural contribuem para que as novas gerações reconheçam suas origens e participem das transformações econômicas, ambientais e sociais da região.

A jovem embaixadora de impacto social Joana Gastaldi participa da iniciativa para ampliar o acesso à gramática e fortalecer o reconhecimento da língua Kambeba.
“Participar dessa iniciativa é contribuir para que a história, a língua e os conhecimentos do povo Kambeba continuem sendo transmitidos às novas gerações. Valorizar a cultura indígena é reconhecer a riqueza da Amazônia e a importância dos povos que preservam esses saberes. Acredito que iniciativas como essa ajudam a fortalecer identidades e a construir um futuro que respeite nossas origens.”

Três Unidos: uma história de resistência, educação e conquistas

A comunidade indígena Três Unidos começou a se formar em 19 de novembro de 1991, quando Waldemir, sua esposa Babá e os cinco filhos deixaram Manaus em direção à região do rio Cuieiras. Nos primeiros anos, a família enfrentou dificuldades de moradia e alimentação, além de preconceito relacionado à identidade indígena. Em 1993, Waldemir se identificou como Kambeba a um guia de turismo, Rubem, que ofereceu trabalho à família e orientou Babá na produção de artesanato.

Em 1994, diante da necessidade de escolarizar as crianças, os moradores se mobilizaram para iniciar as atividades educacionais. Raimundo Kambeba, então com 14 anos, assumiu o ensino das primeiras crianças. Ao longo dos anos, a comunidade conquistou melhorias na saúde, na educação e na geração de renda, além de fortalecer o turismo de base comunitária e o artesanato indígena. Atualmente, Três Unidos reúne 42 famílias e conta com escolas, posto de saúde, energia solar e espaços dedicados ao turismo e à cultura Kambeba. A edição impressa da gramática representa mais um passo na preservação da língua e na transmissão dos conhecimentos ancestrais às novas gerações.

Serviço
Evento: Imersão na Cultura Amazônica e Lançamento da Nova Gramática da Língua Kambeba
Data: 22 de outubro de 2026
Local: CETI Áurea Pinheiro Braga — Av. Brasil s/n, CEP 69036-110 Compensa 2, Manaus- Amazonas-Brasil
Horário: 9h

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