
Resolver tudo sozinho é frequentemente visto como uma virtude, mas quando essa necessidade se torna compulsiva, pode indicar um padrão de comportamento conhecido como hiperindependência. Segundo a psicóloga clínica Débora Porto, especialista em saúde da mulher em Brasília, embora não seja um transtorno, essa característica pode ser prejudicial à saúde mental e aos relacionamentos.
O Que é Hiperindependência?
A hiperindependência é um padrão emocional onde a pessoa sente uma necessidade rígida de resolver tudo por conta própria e tem grande dificuldade em pedir ou aceitar ajuda. Débora Porto diferencia isso da autonomia saudável, que implica a capacidade de se virar, mas com a flexibilidade de buscar apoio quando necessário. Na hiperindependência, prevalece a crença de que só se pode confiar em si mesmo, e a dependência de outros é vista como um risco de decepção ou falha.
As Raízes do Comportamento
O psiquiatra Eduardo Perin, especialista em terapia cognitivo-comportamental (TCC), explica que a hiperindependência atua como uma defesa contra a vulnerabilidade e a dependência emocional. No cérebro, esse padrão pode gerar estresse constante e um estado de alerta, dificultando o relaxamento. Com o tempo, o cérebro “aprende que depender é perigoso”.
Débora Porto acrescenta que essa rigidez muitas vezes decorre de experiências passadas onde a dependência resultou em frustração, crítica ou abandono. Para evitar futuras dores, a pessoa adota o mecanismo de resolver tudo sozinha. Contudo, nem sempre há um trauma grave; o comportamento pode ser aprendido no ambiente familiar ou reforçado por aspectos culturais.
Consequências no Dia a Dia
O padrão de hiperindependência, ao longo do tempo, pode gerar um sofrimento significativo, manifestando-se em:
- Dificuldade ou vergonha de pedir ajuda.
- Sobrecarga constante e cansaço frequente.
- Irritação quando alguém tenta oferecer auxílio.
- Ansiedade quando a dependência de outra pessoa é inevitável.
No ambiente de trabalho, por exemplo, a necessidade de confiar em colegas pode gerar grande tensão. Muitas pessoas hiperindependentes relatam insônia, tensão muscular e a sensação persistente de estarem sempre “ligadas”. Perin alerta que a manutenção desse padrão pode levar à solidão e à exaustão emocional, e é comum que essas pessoas demorem a buscar ajuda profissional ou minimizem seus próprios sintomas.
Impacto nas Relações
Relacionamentos saudáveis são construídos sobre a troca e a divisão de responsabilidades. A hiperindependência, no entanto, sabota essa dinâmica. A pessoa pode assumir todas as tarefas, tomar todas as decisões e se comunicar pouco sobre seus sentimentos, o que, ironicamente, pode levá-la a sentir-se sozinha. “Permitir que alguém participe da sua vida exige vulnerabilidade. Para quem aprendeu a se virar sozinho, isso pode ser difícil”, explica Débora Porto.
Parceiros, amigos e familiares podem se sentir excluídos, enquanto a pessoa hiperindependente é frequentemente vista como “a forte”, que resolve tudo, mas raramente compartilha suas próprias fragilidades. Essa dinâmica pode resultar em uma solidão silenciosa, onde há convivência, mas pouca profundidade emocional. “A hiperindependência pode acabar com relacionamentos, sejam eles amorosos, de amizade ou com família”, reforça Porto.
Buscando Equilíbrio: O Caminho para a Flexibilidade
O tratamento principal para a hiperindependência é a psicoterapia, especialmente abordagens focadas em vínculos e padrões de relacionamento. Medicamentos são indicados apenas quando há ansiedade, depressão ou trauma associados.
O objetivo da terapia não é eliminar a independência, que continua sendo uma qualidade. O foco é trabalhar a rigidez desse padrão. O processo terapêutico envolve:
- Questionar Crenças: Desafiar ideias como “eu só posso contar comigo mesmo”.
- Testar a Confiança: Realizar pequenas experiências de confiança, como delegar tarefas simples ou compartilhar dificuldades leves.
- Tolerar o Desconforto: Aprender a lidar com o desconforto de não ter controle total sobre tudo.
“O cérebro aprende por experiência. É preciso viver trocas seguras para perceber que confiar não é ameaça”, conclui Eduardo Perin. Abrir-se à colaboração e ao apoio mútuo é um passo essencial para uma vida mais equilibrada e relações mais profundas e satisfatórias.
Com informações de Metrópoles







