Fotos: Luiz Felipe Santos/ DPE-AM

As letras críticas do rap passaram a fazer parte do dia a dia de Maria*, de 16 anos, desde que começou a cumprir medida socioeducativa no Centro Socioeducativo de Internação Feminina, na zona Centro-Oeste de Manaus, há três meses. Nesta sexta-feira (3/7), ela apresentou uma das músicas que compôs durante a 5ª edição do projeto “Caminhos Literários no Socioeducativo: pelo direito à cultura” para outros jovens que vivem a mesma realidade.

A adolescente cantou sobre as riquezas da Amazônia e afirmou que pretende fazer da arte o caminho para transformar sua trajetória. Entre os planos para quando deixar o sistema socioeducativo está escrever um livro sobre a própria história.

“Vou escrever um livro contando a minha história desde que eu tinha nove anos. Vou mostrar a todos também que o rap não é um simples canto, é algo que serve muito para a nossa vida”, disse.

Da plateia, João*, de 17 anos, contou que está há sete meses no Centro Socioeducativo Dagmar Feitosa e, nesse período, escreveu três músicas de trap, um dos subgêneros presentes na cultura hip hop. A escrita tornou-se seu novo passatempo e, segundo ele, também poderá representar uma fonte de renda para ajudar a família.

“Eu pretendo escrever ainda mais, sobre o que eu vivo, o que eu vivi e tudo o que aprendi. Quero poder ajudar minha família e dar todo o apoio para minha mãe com esse trabalho”, comentou.
Caminhos Literários no Socioeducativo

Na sede administrativa da Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM), localizada na Avenida André Araújo, no bairro Aleixo, a iniciativa reuniu adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas para uma imersão na cultura hip hop, com o propósito de ampliar perspectivas e inspirar novas oportunidades para o futuro.

O 1º subdefensor público-geral do Amazonas, Helom Nunes, destacou que o encontro busca oferecer esperança aos adolescentes e mostrar que é possível construir novos projetos de vida.

“A Defensoria é uma instituição comprometida com a proteção da criança e do adolescente, inclusive daqueles em conflito com a lei. É importante nos unirmos a parceiros para promover o resgate desses jovens, isso transforma a sociedade”, afirmou.

Arte que transforma

Durante uma tarde de imersão na cultura hip hop, os participantes experimentaram diferentes expressões artísticas, como música e dança, além de conversar com artistas que encontraram na cultura um caminho de transformação. Entre eles, Rafa Militão, DJ nascida na periferia de Manaus.

“O que vocês viram aqui foi a cultura hip hop acontecendo. E foi isso que me salvou”, declarou a artista.
“Acredito muito na arte como ferramenta de transformação social. Também sou da quebrada e perdi vários amigos. Só não virei estatística porque encontrei a música”, completou.

André Santos, integrante do coletivo Perifa Amazônia, apresentou aos socioeducandos as diferentes possibilidades da cultura hip hop e mostrou como sentimentos como raiva e revolta podem ser transformados em expressão artística.

“Viemos fazer aqui o que já fazemos diariamente nas unidades socioeducativas: formar lideranças. Eles passam a entender que a cultura hip hop é um instrumento político e de transformação”, destacou.
Mais sobre o projeto

A iniciativa reúne representantes do sistema de Justiça, especialistas e profissionais das áreas de cultura, educação, socioeducação e direitos humanos para discutir o acesso à cultura como direito fundamental de adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas.

Nesta edição, o movimento hip hop foi o tema central da programação, que reuniu apresentações culturais, palestras e debates voltados à reflexão sobre o papel da arte na ampliação de direitos e na construção de novas perspectivas para esses jovens.

“O Amazonas sempre esteve envolvido com políticas que promovem o resgate dentro do sistema. Aqui temos jovens que hoje são exemplos positivos e podem inspirar outros colegas”, afirmou Saulo Góes, magistrado representante do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Prisional e Socioeducativo do Tribunal de Justiça do Amazonas.

O diretor do Departamento Socioeducativo da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc), Gerlison Portílio, ressaltou a importância de iniciativas como essa para adolescentes privados de liberdade.

“Por meio da dança, da música e do grafite, os jovens têm um momento de lazer e, mais do que isso, acesso a uma cultura que pode servir de base para uma transformação”, pontuou.
O evento foi promovido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em parceria com a Defensoria Pública do Amazonas (DPE-AM) e com o apoio da Secretaria de Estado de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc).

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