O presidente de Israel, Isaac Herzog, deverá entregar oficialmente neste domingo (7) a Gadi Eisenkot o mandato para tentar formar um novo governo, em um movimento que representa um revés político para o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

A decisão foi anunciada pelo gabinete de Herzog após dois dias de consultas com os partidos eleitos para o Knesset, o Parlamento israelense. Eisenkot, general aposentado e líder do partido centrista Yashar, saiu das eleições de 27 de outubro com o apoio de 67 parlamentares, incluindo representantes de dois partidos árabes.

Netanyahu, por sua vez, recebeu apenas 46 recomendações. Durante as consultas, também ficou evidente uma divisão em seu antigo bloco de apoio: o partido Judaísmo Unido da Torá, tradicional aliado do primeiro-ministro, recusou-se a recomendá-lo.

Apesar do resultado, a indicação de Eisenkot não significa a saída imediata de Netanyahu do poder. O novo líder terá de transformar o apoio parlamentar em uma coalizão capaz de sustentar um governo.

Oposição enfrenta divergências para formar coalizão

Eisenkot defende a criação de um chamado “governo nacional de emergência”, com a participação de quatro partidos de oposição judaica. Juntos, eles somam 48 cadeiras no Parlamento.

O grupo reúne o Yashar, liderado pelo próprio Eisenkot; o Juntos, comandado pelos ex-primeiros-ministros Naftali Bennett e Yair Lapid; o Yisrael Beiteinu, de Avigdor Liberman; e o Democratas, de esquerda, liderado por Yair Golan.

Para integrar o governo, Eisenkot estabeleceu quatro condições: reconhecimento de Israel como um Estado judeu, democrático, liberal e igualitário; compromisso com os valores da Declaração de Independência; serviço universal, militar, nacional ou civil; e reconhecimento do Hamas como organização terrorista.

A exigência relacionada ao Hamas, na prática, impede que partidos árabes ocupem cargos no gabinete. Ainda assim, essas legendas poderiam apoiar o governo no Parlamento, garantindo os votos necessários para sua sustentação.

Pelas regras israelenses, uma maioria simples é suficiente para formar um governo. Já a derrubada de uma administração exige o apoio de pelo menos 61 dos 120 parlamentares a uma alternativa governamental.

Liberman é principal obstáculo

Um dos maiores desafios de Eisenkot é convencer Avigdor Liberman a apoiar o projeto. O líder do Yisrael Beiteinu rejeita a possibilidade de um governo que dependa dos partidos árabes e considera que uma administração minoritária teria pouca estabilidade.

Na sexta-feira, Liberman defendeu nas redes sociais outra estratégia: tentar formar uma coalizão de 61 parlamentares com os partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, sem a participação da Lista Conjunta e do Ra’am.

O político também sugeriu que, depois da formação desse governo, três ou quatro parlamentares do Likud poderiam abandonar o partido de Netanyahu e aderir à nova coalizão.

A proposta, porém, entra em conflito com um dos principais compromissos assumidos pela oposição durante a campanha: acabar com a isenção geral do serviço militar obrigatório concedida aos homens ultraortodoxos.

As legendas ultraortodoxas defendem a manutenção desse benefício, enquanto Eisenkot, Liberman e outros opositores prometeram estabelecer o serviço universal. Além disso, um dos partidos ultraortodoxos continua alinhado a Netanyahu.

Netanyahu reage e critica possível apoio árabe

Mesmo após perder a maioria parlamentar, Netanyahu intensificou as críticas à possibilidade de uma aproximação entre a oposição e os partidos árabes.

O primeiro-ministro contestou os resultados eleitorais e alegou que a votação teria sido “roubada” por partidos árabes, por meio de suborno e financiamento estrangeiro. Também foram relatadas pressões para que políticos árabes fossem investigados, sem apresentação de evidências públicas que sustentassem as acusações mencionadas.

Em uma declaração em vídeo divulgada no sábado, Netanyahu afirmou que Israel “simplesmente não sobreviverá” caso um governo minoritário seja formado com apoio das legendas árabes.

Como alternativa, ele defendeu a criação de um governo de unidade nacional com seu próprio bloco, que inclui partidos de extrema-direita e ultraortodoxos. O premiê apelou aos partidos sionistas para que participem de uma administração que, segundo ele, preserve o Estado judeu.

Eisenkot classificou a declaração como uma “manobra patética”. Em resposta, o partido Yashar afirmou que o Likud seria bem-vindo a participar de um governo de unidade caso rompesse sua aliança com os partidos extremistas e aceitasse a liderança de Eisenkot.

Novo Parlamento terá primeiro teste na terça-feira

O primeiro desafio político de Eisenkot será na terça-feira, quando ocorrerá a posse do novo Knesset. A oposição pretende substituir Netanyahu no comando da presidência do Parlamento, medida que poderia reduzir sua influência institucional.

Os partidos também pretendem iniciar articulações para criar uma comissão estatal de inquérito sobre as falhas de segurança que antecederam o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023.

A partir deste domingo, Eisenkot terá 28 dias para negociar a formação da coalizão, incluindo a distribuição de cargos no gabinete, orçamento e diretrizes políticas. O prazo poderá ser prorrogado por mais 14 dias.

Caso não consiga formar o governo, o mandato poderá passar novamente para Netanyahu, que terá outras quatro semanas para tentar construir uma maioria.

Na sexta-feira, Eisenkot afirmou que pretende acelerar as negociações e classificou a situação política como uma emergência nacional. Segundo ele, a permanência de um primeiro-ministro interino sem maioria parlamentar no comando das estruturas de segurança e das autoridades policiais representa um risco que não deveria continuar.

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