Casos de violência contra mulheres e conteúdos na internet que propagam ódio reacenderam debate sobre misoginia • Montagem CNN Brasil

O caso de estupro coletivo contra uma jovem no Rio de Janeiro e as violências diárias reacenderam o debate sobre grupos que propagam ódio contra mulheres e atraem jovens na internet.

A “machosfera”, como são chamadas as comunidades online que incentivam comportamentos agressivos de homens, inclui movimentos que defendem a superioridade masculina, a submissão feminina e a misoginia.

CNN Brasil separou os principais grupos apontados como participantes do núcleo e te mostra detalhes sobre como eles pensam e agem. Entenda abaixo: 

“Red Pill”

O grupo dos “Red Pill” seria a “subcultura” mais famosa entre as que compõem a chamada “machosfera”. O conceito do núcleo está atrelado ao filme “Matrix”, em que são apresentadas duas pílulas diferentes, uma azul e uma vermelha.

A de coloração azulada retrata “o mundo das ilusões”. Já a avermelhada seria responsável por fazer “enxergar a realidade”. Como inspiração, o movimento atribui as características da obra aos próprios significados.

Para os “Red Pills”, eles fazem parte de uma parcela da população que decidiu “acordar” para um mundo em que as mulheres têm mais direitos e privilégios que os homens.

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“Incel”

A palavra “incel” é resultado da junção de “involuntary celibate” (celibatário involuntário, em tradução livre para o português). O significado faz menção ao grupo, pois os integrantes do núcleo entendem que são preteridos pelas mulheres heterossexuais.

Segundo os membros, elas escolheriam os homens para se relacionar apenas por conta de interesses físicos e sexuais.

Como resultado, os “incels” são caracterizados popularmente como homens sexualmente frustrados e que passam a cultivar o sentimento de ódio contra as mulheres.

Segundo a ONU Mulheres, o grupo acredita que homens têm “direito” ao sexo e que as mulheres os privam disso propositalmente. “A cultura extremista incel promove estupro e agressões e mistura outras ideologias, como racismo e homofobia”, diz a instituição.

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“MGTOW”

Por mais que seja menor no Brasil, o grupo “MGTOW” (“Men Going Their Own Way” ou “Homens Seguindo Seu Próprio Caminho”) ainda atrai jovens pelo mundo. O núcleo representa homens que acreditam que a sociedade está contra eles e que a melhor opção é evitar as mulheres e até o próprio meio social.

Por isso, para os integrantes da comunidade, os homens devem se preservar do mundo, priorizando o desenvolvimento pessoal. No grupo, é comum serem vistos ataques às leis de proteção contra mulheres e também às iniciativas de igualdade de gênero.

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“Caso ela diga não”

A PF (Polícia Federal) abriu um inquérito para investigar a trend “Caso ela diga não”, que viralizou nas redes sociais e incita práticas de violência contra a mulher.

A apuração começou após denúncias da trend que viralizou no TikTok no mês do Dia Internacional da Mulher com homens simulando reações violentas diante de uma negativa em situações românticas. Ao supostamente escutarem um “não”, eles desferem socos, simulam dar facadas ou até tiros.

A Diretoria de Crimes Cibernéticos da PF, que conduz a investigação, já solicitou que alguns perfis que divulgaram esses conteúdos fossem derrubados e o material retirado do ar. A plataforma em que os vídeos foram divulgados já realizou a remoção.

Em paralelo, nesta terça-feira (10), está previsto na pauta da Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados a votação de um requerimento para a PGR (Procuradoria-Geral da República) investigar a publicação viral. A proposta é do deputado federal Pedro Campos (PSB).

A instauração do procedimento investigativo é uma sinalização da PF pelo combate à disseminação de conteúdos no ambiente digital que incentivam crimes contra a mulher, principalmente no mês da mulher.

A Polícia Federal também pediu a preservação dos dados para incluir no inquérito. As informações reunidas serão analisadas pelos investigadores.

Conteúdos na internet

Apesar da remoção de perfis e publicações da trend que incita a violência de gênero, alguns materiais ainda estão ativos nas redes.

Publicações com a frase “treinando caso ela diga não”, ou com variações, começam com gestos românticos, como o homem se ajoelhando para pedir uma mulher em casamento. Mas, após a encenação de uma rejeição, o autor do vídeo simula chutes, socos e até agressões com armas brancas contra a mulher.

A repercussão gerou uma resposta imediata na internet. Diversos influenciadores fizeram posts condenando a trend. A influencer Hana Khalil fez um post afirmando que os vídeos normalizam a violência contra mulher e a criminalização da misoginia.

Além da investigação da Polícia Federal já em andamento, o requerimento do deputado Pedro Campos, que ainda será votado, também pede que plataformas de redes sociais sejam oficiadas para que forneçam informações sobre o alcance das publicações, dados de autoria e medidas administrativas adotadas.

A investigação dessa trend vem em meio ao crescente índice de violência contra a mulher no Brasil. O país registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década.

Foram 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024, quando houve 1.492 casos. Os números mostram, então, que quatro mulheres foram assassinadas por dia no ano passado no Brasil.

Em nota à CNN Brasil, o TikTok afirmou que os conteúdos que violam as Diretrizes da Comunidade foram removidos da plataforma assim que identificados.

“Nosso time de moderação segue atento e trabalhando para identificar possíveis conteúdos violativos sobre o tema. Não permitimos discurso de ódio, comportamento violento e de ódio ou promoção de ideologias de ódio. Nossa prioridade é manter a comunidade segura e protegida, e continuamos a investir em medidas contundentes que reforçam e defendem ativamente a segurança de nossa plataforma”, completa.

Com informações de CNN Brasil.

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