Manaus amanheceu nesta quarta-feira (23) encoberta por uma forte camada de fumaça e com a qualidade do ar em nível considerado “péssimo”. O episódio ocorre enquanto a capital amazonense permanece fora do Programa União com Municípios pela Redução do Desmatamento e Incêndios Florestais, iniciativa federal criada para fortalecer justamente a prevenção, o monitoramento e o controle ambiental nos municípios prioritários da Amazônia.

Às 8h32, a própria Prefeitura de Manaus confirmou uma concentração média de 188,5 microgramas por metro cúbico (µg/m³) de partículas finas PM2,5, classificada como “péssima”. Segundo a administração municipal, a fumaça é proveniente de queimadas em diferentes áreas da Amazônia, principalmente na Região Metropolitana de Manaus e no leste do Amazonas. A Prefeitura ressalta, porém, que dados do Inpe colocam Manaus entre os municípios com menor número de focos de incêndio no estado e afirma manter ações próprias de prevenção, fiscalização e monitoramento.

Dados do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas, informados no material que embasa esta reportagem, indicaram situação ainda mais crítica nas primeiras horas do dia. Às 5h15, o Distrito Industrial I teria atingido 587,9 µg/m³ de PM2,5, e outros pontos da capital apresentavam posteriormente concentrações superiores a 200 µg/m³.

Manaus ficou fora do União com Municípios

Em meio à fumaça, chama atenção a situação da capital no União com Municípios. Criado pelo Decreto nº 11.687/2023, o programa federal tem como objetivo apoiar ações de prevenção, monitoramento e redução do desmatamento e da degradação florestal em municípios prioritários do bioma Amazônia. A adesão depende de compromisso formal do município com as metas e objetivos estabelecidos.

Segundo as informações apresentadas pelo Ministério do Meio Ambiente em resposta a requerimento do deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM), Manaus não formalizou a adesão apontada no documento, diferentemente de outros municípios amazonenses.

A relação informada inclui Apuí, Boca do Acre, Canutama, Humaitá, Itapiranga, Lábrea, Maués, Manicoré e Novo Aripuanã. Documentos oficiais do Governo do Amazonas também registram esses nove municípios entre os inicialmente considerados prioritários no estado.

A ausência de adesão ganha relevância porque o programa não se resume ao repasse de dinheiro. A política federal financia e estrutura ações de monitoramento ambiental, regularização ambiental e fundiária, assistência técnica e mecanismos de prevenção e controle do desmatamento e da degradação florestal.

Programa entrega equipamentos e estrutura às prefeituras

A implementação do União com Municípios inclui a criação de escritórios municipais de governança ambiental voltados ao acompanhamento do desmatamento e dos incêndios.

Ao longo de 2025, mais de 1,8 mil equipamentos foram entregues às prefeituras contempladas, acompanhados de capacitação das equipes municipais e assistência técnica. A estrutura busca aumentar a capacidade das administrações locais de acompanhar áreas de risco e responder aos problemas ambientais.

Somente um projeto contratado pelo BNDES e pelo MMA em 2025 mobilizou R$ 150 milhões do Fundo Amazônia para 48 municípios. No Amazonas, sete cidades contempladas nessa frente — Apuí, Boca do Acre, Canutama, Humaitá, Itapiranga, Manicoré e Maués — foram incluídas em investimentos de R$ 32 milhões para ações ambientais e fundiárias.

Dados mais recentes do MMA apontam que o União com Municípios atualmente destina R$ 800 milhões aos municípios prioritários e registra atendimento a 80 cidades.

Os valores específicos citados no material enviado para eventual acesso de Manaus — aporte inicial de aproximadamente R$ 700 mil e possibilidade de superar R$ 3 milhões — dependem das modalidades, projetos e condições de acesso ao programa e, por isso, não significam que esses recursos estariam automaticamente garantidos à capital.

Prefeitura diz que mantém ações próprias contra queimadas

Embora esteja fora da adesão mencionada ao programa federal, a Prefeitura afirma que mantém estrutura própria para enfrentar as queimadas.

Na nota divulgada nesta quarta-feira, a administração municipal informou que atua por meio do Comitê de Prevenção às Queimadas. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudança do Clima (Semmas), segundo a Prefeitura, realiza campanhas educativas, fiscalização e monitoramento com drones.

A origem regional da fumaça também é um elemento importante: a Prefeitura afirma que ela chega principalmente de queimadas localizadas na Região Metropolitana e no leste amazonense, e não atribui o episódio exclusivamente a incêndios dentro dos limites de Manaus.

Ainda assim, a permanência da capital fora do programa federal coloca em discussão uma questão administrativa: por que um município atingido recorrentemente pela fumaça e considerado elegível às ações federais não integra uma estrutura de cooperação que oferece equipamentos, capacitação e instrumentos de monitoramento ambiental?

Emenda de Amom destina R$ 400 mil ao Ibama em 2026

Há ainda outras fontes de recursos federais direcionadas ao enfrentamento do fogo no Amazonas. Dados oficiais da Câmara dos Deputados confirmam que, no Orçamento de 2026, uma emenda individual do deputado Amom Mandel destinou R$ 400 mil ao Ibama para a ação “Prevenção e Controle de Incêndios Florestais nas Áreas Federais Prioritárias”, no estado do Amazonas.

Dos R$ 400 mil autorizados, o sistema da Câmara registra atualmente R$ 100 mil empenhados e nenhum pagamento realizado.

O quadro desta quarta-feira expõe, portanto, dois aspectos distintos do problema. De um lado, Manaus sofre os efeitos de incêndios que ultrapassam suas fronteiras municipais e recebe fumaça proveniente também de outras regiões do Amazonas. De outro, existem políticas federais destinadas a ampliar a capacidade local de prevenção e monitoramento ambiental às quais a capital não aderiu conforme a documentação citada.

Enquanto essa discussão permanece, o efeito mais imediato é sentido pela população: Manaus voltou a amanhecer respirando ar oficialmente classificado como “péssimo”.

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