A crise provocada pela fumaça que encobre Manaus ganhou um novo capítulo de confronto político nesta sexta-feira (9). O ex-deputado federal Marcelo Ramos atacou duramente o comandante do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas (CBMAM), coronel Orleilso Muniz, chamando-o de “incompetente” e “mentiroso”, após o militar divulgar documentos que apontam dificuldades para obter aeronaves do governo federal destinadas ao combate aos incêndios florestais. Em vídeo publicado nas redes sociais, Ramos afirmou que o Amazonas recebeu recursos federais para enfrentar as queimadas e questionou por que uma emenda de R$ 16 milhões, destinada pelo senador Omar Aziz (PSD) em 2023 para a compra de um avião de combate a incêndios, não teria resultado na aquisição do equipamento.

“Todo incompetente precisa de uma desculpa e de um culpado para justificar a sua incompetência. O comandante do Corpo de Bombeiros do Estado do Amazonas é um incompetente, que não deu conta de tomar as providências para evitar esse fumaceiro sobre a cidade de Manaus. E agora tenta culpar o Governo Federal”, disparou Marcelo Ramos.

A reação ocorreu depois que Orleilso Muniz tornou pública uma troca de ofícios entre o Governo do Amazonas e órgãos federais, mostrando que o Estado solicitou apoio aéreo para combater os incêndios, mas recebeu uma resposta informando que não havia aeronaves públicas disponíveis para atender à missão naquele momento.

Marcelo Ramos questiona compra de avião e aluguel de R$ 2,1 milhões

Um dos pontos mais contundentes da manifestação de Marcelo Ramos foi o questionamento sobre a destinação de recursos para a aquisição de uma aeronave especializada no combate a incêndios florestais.

Segundo o ex-deputado, o senador Omar Aziz destinou, em 2023, uma emenda parlamentar de R$ 16 milhões para essa finalidade, mas o equipamento não teria sido adquirido.

Ramos também afirmou que o Corpo de Bombeiros contratou emergencialmente o aluguel de uma aeronave por R$ 2,1 milhões, com dispensa de licitação.

“Mas tem mais: o senador Omar destinou uma emenda de 16 milhões de reais em 2023 para ele comprar um avião desses de combate a incêndio. Até hoje ele não comprou o avião. Mas agora, malandramente, ele assinou um aluguel de um avião de 2 milhões e 100 mil reais”, afirmou.

O ex-parlamentar cobrou explicações sobre a não aquisição da aeronave e as circunstâncias da contratação emergencial.

“É muito estranho que ele não tenha comprado o avião que o senador Omar disponibilizou a emenda, e agora tenha, emergencialmente, com dispensa de licitação, alugado um avião por 2 milhões e 100 mil reais”, declarou.

As afirmações sobre a emenda parlamentar e o contrato de locação foram feitas por Marcelo Ramos. As informações fornecidas não incluem os documentos de execução orçamentária nem o contrato administrativo que permitiriam verificar a situação dos recursos e as condições da contratação.

Ex-deputado afirma que governo federal destinou mais de R$ 100 milhões

Marcelo Ramos também contestou a interpretação de que o governo federal teria deixado o Amazonas sem apoio financeiro para enfrentar os incêndios.

Segundo ele, desde 2023 foram disponibilizados mais de R$ 100 milhões para contratação de pessoal, aquisição de equipamentos e outras medidas de prevenção e combate às queimadas.

O ex-deputado afirmou ainda que R$ 45 milhões foram destinados neste ano para compra de equipamentos e acusou a gestão do Corpo de Bombeiros de não executar a maior parte dos recursos.

“Desde 2023, já são mais de 100 milhões de reais disponibilizados para contratação de pessoas, de equipamentos e medidas de combate aos incêndios na Amazônia. Só esse ano, foram 45 milhões de reais disponibilizados para compra de equipamentos. A maior parte desse recurso não executada por incompetência do comandante do Corpo de Bombeiros”, acusou.

Outra crítica foi direcionada à participação do Amazonas no Projeto de Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres (Respad), mecanismo federal que permite mobilizar bombeiros de outros estados em situações emergenciais.

Ramos afirmou que Orleilso Muniz teria sido convidado a Brasília para formalizar a adesão ao projeto, mas se recusou a assinar o instrumento.

“Ele se negou a assinar o convênio”, declarou o ex-deputado.

A alegação sobre a recusa não foi acompanhada, nas informações apresentadas, de documentação que esclareça as circunstâncias da decisão.

Comandante divulga ofícios que apontam falta de aeronaves federais

A manifestação de Marcelo Ramos ocorreu após o comandante Orleilso Muniz divulgar documentos oficiais relacionados aos pedidos de apoio aéreo feitos pelo Governo do Amazonas.

Conforme os registros apresentados, o Corpo de Bombeiros solicitou, em 18 de setembro, apoio para a locação de duas aeronaves de combate a incêndios florestais, incluindo pilotos e combustível, para operações entre setembro e novembro.

Em 24 de setembro, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil recomendou o acionamento do protocolo Pegasus, mecanismo utilizado para mobilizar aeronaves públicas em situações de emergência.

Entretanto, em resposta encaminhada nesta sexta-feira (9), o Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que nove unidades aéreas públicas haviam sido consultadas, mas nenhuma apresentava condições operacionais para executar a missão naquele momento.

Entre os obstáculos apontados estavam aeronaves em manutenção, falta de tripulações disponíveis, restrições de deslocamento e ausência de equipamentos adequados para lançamento de água.

Após a resposta, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil encaminhou um novo pedido ao Ministério da Defesa, solicitando duas aeronaves para combater os incêndios no Amazonas.

Os documentos divulgados pelo comandante demonstram que houve solicitação de apoio e indisponibilidade das unidades consultadas, mas não esclarecem, por si só, a execução dos recursos financeiros destinados ao Estado.

Governo federal anuncia seis aeronaves e 290 brigadistas para o Amazonas

Em meio à troca de acusações, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciou nesta sexta-feira o envio de seis aeronaves e 290 brigadistas para reforçar o enfrentamento dos incêndios florestais no Amazonas.

Segundo a pasta, a operação contará com quatro aviões Air Tractor, utilizados no lançamento de água, e dois helicópteros.

O ministério informou ainda que o Ibama extinguiu 229 incêndios no Amazonas desde o início da temporada e continuava atuando em outros 20 focos ativos.

A manifestação federal ocorreu após o comandante do Corpo de Bombeiros questionar a disponibilidade de aeronaves e o superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, destacar a existência de recursos federais destinados às ações de combate às queimadas.

Governo do Amazonas teria dispensado apoio federal em setembro

Outro ponto da controvérsia envolve uma informação divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente sobre a mobilização de equipes federais.

De acordo com a pasta, o pedido de apoio do Amazonas foi recebido pelo Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal (Ciman Federal), coordenado pelo Ibama, em 23 de setembro.

A partir da solicitação, foram acionados integrantes do Respad e uma aeronave vinculada ao projeto Pegasus.

Entretanto, segundo o ministério, em 30 de setembro o Governo do Amazonas comunicou que não precisava mais do apoio do Respad, após chuvas contribuírem para o controle dos focos de incêndio.

Com isso, a equipe federal foi dispensada antes de iniciar o deslocamento para as operações.

A informação acrescentou um novo elemento à discussão sobre a articulação entre os governos estadual e federal durante a emergência ambiental.

Ministério aponta R$ 45 milhões do Fundo Amazônia

O Ministério do Meio Ambiente também destacou que o projeto ProAmazon recebeu apoio de R$ 45 milhões do Fundo Amazônia para fortalecer a estrutura do Corpo de Bombeiros do Amazonas.

Segundo a pasta, os pagamentos relacionados ao projeto ocorreram em janeiro de 2025 e março de 2026.

Os recursos foram destinados a ações de prevenção e combate aos incêndios florestais e às queimadas não autorizadas, incluindo o fortalecimento da capacidade operacional da corporação.

O governo federal informou ainda que orientou o Amazonas a solicitar recursos adicionais pelo Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil (SINPDEC), mas afirmou que, até aquele momento, o Estado não havia formalizado o pedido.

Troca de acusações ocorre enquanto Manaus enfrenta crise de fumaça

A discussão entre Marcelo Ramos e o comandante dos Bombeiros acontece em um dos momentos mais críticos da qualidade do ar em Manaus.

Nesta sexta-feira, a capital registrou índices classificados como péssimos em diferentes regiões, conforme dados da plataforma Selva, da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Enquanto o governo federal anuncia o reforço das operações e o comandante estadual apresenta documentos sobre dificuldades para obter aeronaves, Marcelo Ramos cobra explicações sobre o uso dos recursos públicos destinados ao combate aos incêndios.

Ao encerrar o vídeo, o ex-deputado voltou a atacar Orleilso Muniz.

“Tome vergonha na cara e vá fazer o seu trabalho para proteger o povo de Manaus dessa fumaça”, disparou.

A controvérsia deixa questões que ainda precisam ser esclarecidas: qual foi a execução efetiva dos recursos destinados ao Corpo de Bombeiros, por que a aeronave mencionada por Omar Aziz e Marcelo Ramos não foi adquirida e quais foram as justificativas administrativas para a contratação emergencial de um avião.

As acusações de Marcelo Ramos e as explicações apresentadas pelos órgãos federais foram relatadas com base nas informações fornecidas. Não há, nesse material, uma manifestação específica do comandante Orleilso Muniz sobre as acusações pessoais feitas pelo ex-deputado.

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