
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro decidiu não participar ativamente da campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro, movimento que expõe tensões internas no Partido Liberal e redesenha o tabuleiro da direita para 2026. A decisão já foi comunicada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e, segundo pessoas próximas, reflete o desejo de Michelle de manter distância da disputa, sem ataques públicos ao enteado. A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo neste domingo (15).
Apesar do afastamento, Flávio afirmou que mantém diálogo direto com a ex-primeira-dama e minimizou rumores de divisão. “Não vou alimentar tentativas de racha fabricadas”, disse o senador, ao reforçar que o grupo tem como objetivo comum enfrentar o PT.
Nos bastidores, aliados relatam que Michelle optou por uma atuação discreta, bem diferente do papel de destaque que exerceu em 2022, quando percorreu o país em agendas próprias para fortalecer a campanha do marido, especialmente entre mulheres e eleitores evangélicos.
Mensagem foi ponto de inflexão
Interlocutores de Michelle afirmam que a decisão ganhou força após uma troca de mensagens com Flávio, no mês passado. Na conversa, o senador teria sugerido que ela estaria agindo contra sua pré-candidatura, o que foi interpretado como ofensivo pela ex-primeira-dama. Pessoas próximas dizem que o cenário ainda pode ser revertido, desde que haja um gesto de reaproximação.
Enquanto isso, Michelle tem concentrado esforços em seus próprios planos políticos. A tendência é que dispute o Senado pelo Distrito Federal e se dedique ao apoio de candidatas alinhadas ao seu grupo em diferentes estados.
Ela também está afastada da presidência do PL Mulher desde o fim do ano passado. Oficialmente, alegou motivos de saúde, mas o afastamento ocorreu em meio às articulações que levaram Flávio a ser apresentado como o nome da família para a corrida ao Planalto — decisão que, segundo relatos, não teria sido previamente discutida com ela.
Divergências sobre o nome da direita
O distanciamento também envolve divergências estratégicas. Pessoas do entorno de Michelle afirmam que ela via com melhores olhos uma eventual candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, hipótese que ganhou força após a ex-primeira-dama compartilhar conteúdos críticos ao presidente Lula protagonizados pelo governador.
Esses gestos renderam críticas de alas do bolsonarismo, que passaram a questionar publicamente a lealdade de Michelle ao projeto liderado por Flávio.
Disputa por palanques nos estados
As diferenças também se estendem à montagem das chapas estaduais. Em Santa Catarina, Michelle declarou apoio à deputada Caroline de Toni para o Senado, contrariando acordos do partido que priorizam o nome de Carlos Bolsonaro.
No Ceará, ela se posicionou contra uma possível aliança do PL com Ciro Gomes, defendendo o senador Eduardo Girão, o que provocou novo atrito com integrantes da família Bolsonaro.
Já em São Paulo, Michelle tem trabalhado pela candidatura da deputada Rosana Valle ao Senado, posição diferente da defendida por Eduardo Bolsonaro, que apoia outros nomes.
Aliados criticam condução política
Pessoas próximas à ex-primeira-dama avaliam que Flávio tem conduzido articulações de forma rígida, pressionando aliados a aderirem ao seu projeto presidencial. O deputado Nikolas Ferreira, por exemplo, virou alvo de críticas após sinalizar que priorizará sua reeleição em Minas Gerais, mesmo declarando apoio ao senador.
Nikolas reagiu publicamente, dizendo que seguirá ao lado de Flávio, mas alertou que ataques internos podem afastar aliados importantes.
O ambiente revela um cenário de disputas silenciosas dentro do bolsonarismo, com Michelle buscando preservar capital político próprio, enquanto Flávio tenta consolidar sua pré-candidatura. A equação ainda está em aberto — e os próximos movimentos devem definir o grau de unidade da direita na corrida presidencial.







