Por Luís Lemos, filósofo, professor e escritor
“Se os homens não fossem iguais, não poderiam compreender-se uns aos outros, nem aos seus antepassados, nem planejar o futuro; se não fossem distintos, se cada ser humano não se diferenciasse de qualquer outro que exista, tenha existido ou venha a existir, os homens não precisariam do discurso ou da ação para se fazerem compreender. É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano; e essa inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato original e singular do nosso aparecimento físico.” (Hannah Arendt A condição humana, pág. 18).
Esse pensamento me acompanhava naquela manhã de 5 de janeiro de 2026. Do hotel onde eu estava hospedado até a Escola Municipal Indígena Lilian Ambrósio eram cerca de dez a quinze minutos de caminhada, percorridos a passos lentos, no ritmo despreocupado de quem observa mais do que chega. Segui sem pressa, permitindo que meus pensamentos, as paisagens e as pessoas encontradas pelo caminho entrassem no mesmo compasso das reflexões da filósofa alemã.
Depois de dar uma volta pela orla da cidade e observar os pequenos barcos que chegavam trazendo mercadorias das comunidades e retornavam apressados para novas cargas e descargas, cheguei à escola, onde os alunos do sexto período do curso de Letras – Língua Portuguesa da UEA (Universidade do Estado do Amazonas) já me aguardavam, atentos e curiosos para conhecer o professor que ministraria a disciplina Filosofia da Educação para eles.
Toda aula inaugural carrega esse rito: o primeiro olhar, o silêncio inicial, a expectativa que antecede o diálogo. Antes dos conceitos, era preciso criar presença. Comecei me apresentando e contando um pouco da minha história de vida. Falei de uma origem humilde, marcada pelo trabalho simples e pela crença de que a educação pode transformar destinos. Nada foi fácil, mas cada dificuldade ajudou a construir o professor que sou e o aprendiz que continuo sendo.
Ao partilhar minha trajetória, quis mostrar que a Filosofia não nasce apenas nos livros. Ela começa na vida concreta, nas experiências que nos formam e nos encontros que nos transformam. Ensinar, ali, revelava-se menos como transmissão de conteúdos e mais como partilha de caminhos.
Em seguida, pedi que eles também se apresentassem: que dissessem seus nomes, suas etnias e o nome de uma fruta ou de um animal em sua língua materna. O que veio depois foi uma verdadeira profusão de vozes, ritmos e sons. Baré, Tuyuka, Baniwa, Yuhupdeh, Kubeo, Desana, Tukano, Karapana, Kotiria, Dâw, Tariano, Koripako, Yanomami e Hupdë, nomes que ecoavam pela sala como pequenas narrativas ancestrais, revelando, em poucos minutos, a imensa diversidade cultural dos povos originários dessa região da Amazônia brasileira.
Com aquela atividade, aprendi que cada povo carrega seus próprios mitos de origem, ritos de passagem, formas singulares de educar, costumes cotidianos, crenças espirituais e modos próprios de narrar o mundo por meio da oralidade. São saberes transmitidos de geração em geração pela palavra e pela convivência, compondo universos simbólicos distintos que coexistem, dialogam e resistem. Eles me ensinaram que não existe uma única forma de conhecer, ensinar ou viver, mas muitas, todas igualmente legítimas e profundamente humanas.
Por fim, aprendi com meus alunos que os dias vividos entre os povos originários jamais se perdem no tempo; transformam-se em aprendizado, escuta e sabedoria. Talvez por isso nenhum dia vivido entre eles seja tempo perdido, mas, ao contrário, tempo ganho. Voltei diferente: mais atento e mais consciente de que educar também é saber caminhar devagar, no tempo certo da escuta e da vida.





