Joilson Souza

Joilson Souza

O sol começava a despontar por trás da mangueira. A luz, ainda tímida, espalhava-se pelo quintal, desenhando sombras longas no chão de terra batida. É nesse instante que dona Elza quebrava o silêncio da manhã com sua voz amorosa, mas firme: “Jó, vai lá na taberna comprar pão”.

Esfregando os olhos, ainda pesados de sono, levantava devagar. O corpo resistia, mas o chamado era urgente. Dirijia-me ao camburão d’água, onde mergulhava as mãos e lavava o rosto. A água fria despertava a alma. Em seguida, saía correndo, descalço, pela rua de terra, em direção à taberna do seu Juarez.

Naquele tempo, o mundo parecia caber dentro de um quarteirão. A taberna era um reino de cheiros e sabores. Seu Juarez, homem de poucas palavras, atendia com um aceno de cabeça. O pão, ainda quente, era embrulhado em papel de seda, aquele que parecia guardar segredos e histórias.

De volta à cozinha, o café de dona Elza já anunciava sua presença. Aquele cheiro não era apenas de café coado. Cheirava a amor, a cuidado, à sabedoria de uma mãe que transformava o pouco em abundância. Com as vendas das verduras do quintal e os carretos feitos pelos meus irmãos nas feiras, ela fazia milagres. O pão, simples e cotidiano, tornava-se uma pequena celebração. Cada pedaço partilhado à mesa era um ato de resistência, um gesto de união.

Lembro dos valores que não estavam nos trocados que sobravam, mas no modo como ela os guardava, contava e distribuía. Lembro dos cuidado, do jeito que ela arrumava a mesa, do olhar atento a cada filho, da coragem que vestia como um manto invisível.

Hoje sou pai. O camburão d’água deu lugar à torneira da pia, a taberna foi substituída pela padaria da esquina, e o pão vem embalado em plástico. Mas, quando vejo meus filhos à mesa, ainda sonolentos, esperando o café da manhã, entendo que o que dona Elza me ensinou não era sobre o pão em si, mas sobre o que ele representa: o trabalho que o trouxe, as mãos que o amassaram, o afeto que o serviu.

O papel do pão, afinal, não era apenas embrulhar. Era lembrar que, por trás de cada migalha, há uma história de luta e amor. E é essa herança, simples e quente como o pão do seu Juarez, que eu quero passar adiante.

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