A operação cumpriu mais de 80 mandados contra organização criminosa por lavagem de dinheiro e transações ilegais • Reprodução/Polícia Federal

A Polícia Federal deflagrou na manhã desta quarta-feira a Operação Narco Fluxo, prendendo os cantores MC Ryan SP e MC Poze do Rodo, além de Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei. A ação apura um esquema bilionário de lavagem de dinheiro que teria movimentado mais de R$ 1,6 bilhão em apenas dois anos. A ofensiva contou com o apoio da PMESP por meio da Ficco e ocorreu simultaneamente em nove estados e no Distrito Federal.

A investigação é um desdobramento da Operação Narco Bet e tem como foco uma organização criminosa que utilizava o setor de entretenimento e a indústria musical para ocultar a origem ilícita de recursos provenientes de tráfico de drogas, apostas ilegais e rifas digitais. Artistas e influenciadores digitais tinham papel central no funcionamento do esquema, atuando como um “escudo de conformidade”. A visibilidade e o engajamento dessas figuras públicas ajudavam a dar aparência de legalidade a transações milionárias, dificultando a identificação de irregularidades por órgãos de controle.

O modelo de operação envolvia três frentes principais: a pulverização de recursos por meio de vendas de ingressos e produtos, a dissimulação financeira com uso de criptomoedas e dinheiro em espécie, e a interposição de terceiros, incluindo familiares e “laranjas”, para ocultar os verdadeiros beneficiários dos valores. As investigações apontam ainda uma conexão da organização com o PCC. Um dos principais nomes citados é Frank Magrini, identificado como operador financeiro do grupo e com antecedentes por tráfico de drogas e roubos a bancos. Segundo as investigações, Magrini teria financiado o início da carreira de MC Ryan SP em 2014, além de manter vínculos com empresas que pagariam mensalidades à facção criminosa.

Ao todo, a Justiça expediu 39 mandados de prisão temporária — sendo 33 cumpridos inicialmente — e 45 mandados de busca e apreensão. Mais de 200 policiais participaram da operação. Durante as diligências, foram apreendidos veículos de luxo, armas, joias, relógios, dinheiro em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos. Os carros recolhidos, incluindo modelos como Amarok V6, BMW X1 e Porsche, somam cerca de R$ 20 milhões. Também foi determinado o bloqueio de contas bancárias e o sequestro de bens dos investigados. Eles podem responder por associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

MC Ryan SP, nascido em 2001, é um dos funkeiros mais populares de São Paulo, voz de sucessos como “Revoada Sem Você”, “Favela” e “Tubarão Te Amo”. Na operação, é apontado como um elemento central de projeção pública do esquema bilionário. Antes dessa prisão, o MC já colecionava outras polêmicas com a Justiça, tendo sido conduzido à PF por restrições na sua Ferrari em abril de 2024, flagrado agredindo sua ex-namorada, e multado em R$ 1 milhão após dar “cavalos de pau” em um campo de futebol de Piracicaba em 2025.

MC Poze do Rodo, funkeiro carioca famoso pelo estilo “funk proibidão” com sucessos como “Tô Voando Alto”, foi preso em sua residência no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Suas músicas retratam a realidade das comunidades e já geraram investigações por fazerem apologia ao crime e mencionarem a facção CV. Poze já foi preso em maio de 2025 por suposto envolvimento com o CV e responde a um processo por tráfico de drogas no Mato Grosso, referente a uma prisão de 2019. Sua ex-esposa, a influenciadora Viviane Noronha, também foi alvo recente de investigações sob suspeita de lavar R$ 250 milhões do tráfico.

Raphael Sousa Oliveira, criador da famosa página de fofocas Choquei com mais de 27 milhões de seguidores, foi preso em Goiânia. Ele é apontado como um braço fundamental da organização para fornecer aparente legalidade ao fluxo milionário do crime organizado. Após ser preso, Raphael prestou depoimento à PF, em que declarou faturar de forma lícita R$ 400 mil por mês com a página e negou qualquer irregularidade.

As defesas dos investigados contestam as acusações. Os advogados de MC Ryan SP afirmam que todas as movimentações financeiras do artista são lícitas e devidamente declaradas. A defesa de MC Poze do Rodo informou que ainda não teve acesso aos autos, mas pretende pedir a liberdade do cantor. O advogado de Raphael Sousa declarou que a atuação do influenciador se limitou à prestação de serviços publicitários, negando qualquer participação em organização criminosa. A investigação segue em andamento e novas fases da operação não estão descartadas.

Com informações de Metrópoles

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