
O cotidiano do centro de Manacapuru ganhou novos sentidos no fim da tarde da última segunda-feira (22). Em meio ao vai e vem de clientes, conversas informais e xícaras de café, o Café Brisa do Solimões passou a abrigar uma obra artística permanente que convida à pausa, à leitura e à observação do tempo: um painel poético integrado ao espaço.
Assinada pelo poeta, professor e advogado Raimundo Nogueira, a obra reúne sete sonetos, cada um dedicado a um dia da semana. Fixados em um mural de vidro, os textos passam a dialogar diariamente com quem entra, espera, conversa ou simplesmente observa o movimento do café, transformando o ambiente em uma experiência estética contínua.
Batizada de Sete Tardes no Café Beira do Solimões, a série nasceu da relação do autor com o espaço e com a vida que ali circula. Para Nogueira, o café representa mais do que um ponto comercial: é um lugar de encontros entre gerações, de silêncios compartilhados e de histórias que se cruzam. “A poesia não foi escrita para o café, mas a partir dele. Aqui circulam afetos, pausas e memórias”, resume.
Cotidiano que vira verso
Cada poema acompanha o ritmo próprio dos dias — da urgência discreta das segundas-feiras à calmaria dos domingos. As mudanças do clima, do humor coletivo e das presenças humanas atravessam os versos, enquanto o Rio Solimões aparece como uma presença simbólica constante, refletindo o tempo que passa sem pressa e molda o modo de viver da cidade.
A proposta rompe com a lógica tradicional dos espaços formais de arte. No Brisa do Solimões, a poesia convive com o barulho cotidiano, se oferece ao olhar distraído e pode ser lida aos poucos, entre um gole e outro de café. “A palavra poética pode habitar os espaços comuns sem perder força. Pelo contrário, ela ganha sentido quando faz parte da vida real”, afirma o autor.
Encontro coletivo e identidade cultural
A apresentação oficial do painel ocorreu entre 17h e 19h, reunindo amigos, leitores, artistas e frequentadores do café. O momento foi marcado por leituras espontâneas e conversas, reforçando o caráter coletivo e afetivo da iniciativa. A proprietária do estabelecimento acolheu a proposta e incorporou a obra como parte da identidade cultural do espaço.
Com cobertura do Portal Na Hora, o evento foi visto por muitos como a reafirmação do Brisa do Solimões como um ponto de encontro onde Manacapuru se reconhece: crianças, jovens, adultos e idosos compartilhando o mesmo tempo, o mesmo espaço e o mesmo ritual cotidiano.
Poesia como presença permanente
Ao transformar o café em suporte da palavra, o painel propõe um novo olhar sobre o dia a dia: desacelerar, perceber o instante e valorizar a pausa. “Tudo começa no café da calma”, escreve o poeta no soneto dedicado à segunda-feira — verso que sintetiza o espírito da obra e do lugar.
Com a instalação, o Brisa do Solimões deixa de ser apenas cenário e passa a ser também narrativa viva, onde o cotidiano se escreve em versos e a cidade se lê a si mesma, um dia de cada vez.







