Rafaela Feliciano/Metrópoles

As passagens aéreas subiram 17% nos últimos dois meses, segundo dados do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgados na última sexta-feira, 10 de abril, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Causa principal: alta do querosene de aviação

O aumento nos preços pode ser explicado pela alta do querosene de aviação (QAV), após o início do conflito no Oriente Médio, que gerou um aumento expressivo nos preços dos combustíveis, levando o barril de petróleo a mais de US$ 100.

Especialistas explicam que o combustível de aviação é o principal componente de custo das companhias aéreas e, com o reajuste, ele passou a responder por aproximadamente 45% das despesas do setor.

Análise de especialista

“Houve um aumento abrupto no preço do QAV, com reajustes superiores a 50% em curto período, muito acima da média histórica de variação mensal, que costuma ficar entre 3% e 5%. Na prática, isso significa que quase metade do custo de um voo ficou mais cara de forma acelerada. Em um setor de margens apertadas, esse tipo de choque não é absorvido, mas repassado ao consumidor”, disse Jarbas Thaunahy, professor de finanças da Strong Business School.

O professor explica também que o setor aéreo vive um momento de demanda aquecida, com um volume elevado de passageiros, o que reduz a necessidade das companhias de segurar preços para estimular consumo, mas favorece a alta da inflação.

Impactos econômicos amplos

No entanto, ressaltou, a alta das passagens pode causar impactos em outros setores, sendo um dos efeitos mais relevantes do ponto de vista econômico.

“O transporte aéreo não é apenas um serviço final, ele é também um insumo para diversas atividades econômicas. Quando as passagens ficam mais caras, isso tende a impactar o turismo, as viagens corporativas e, sobremaneira, o transporte de cargas aéreas, o que impacta diretamente na inflação.”, apontou.

Além disso, há um efeito indireto importante: o aumento dos custos pode levar à redução de voos ou de rotas, diminuindo a oferta e pressionando ainda mais os preços.

Impactos específicos da inflação das passagens aéreas

  • Passagens mais caras reduzem a renda disponível, especialmente para quem precisa viajar com frequência ou planejava lazer
  • O encarecimento pode levar consumidores a adiar ou cancelar voos, afetando o setor de turismo
  • Viagens corporativas ficam mais caras, elevando despesas operacionais e podendo impactar preços de serviços
  • Tarifas aéreas mais altas pressionam índices de preços e inflação, e podem contaminar outros setores ligados ao turismo
  • Desigualdade no acesso ao transporte aéreo, já que voar se torna menos acessível, restringindo os voos a faixas de renda mais altas

Medidas do governo para conter preços

O governo federal apresentou uma série de medidas para conter o preço das passagens, entre elas:

  • Diminuição do imposto de Pis/Cofins sobre o QAV, com o objetivo de reduzir o impacto para o bolso do consumidor e a inflação
  • Criação de linhas de crédito para as companhias aéreas, incluindo financiamentos via Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac) para a compra de combustível
  • Linha adicional para capital de giro, com o objetivo de dar fôlego financeiro às empresas em meio à alta de custos
  • Postergação do pagamento de tarifas de navegação aérea pelas companhias
  • Mecanismos da Petrobras que permitem parcelar o impacto do reajuste do combustível ao longo do tempo, reduzindo o choque imediato nos custos operacionais

Limitações das medidas

Apesar disso, o próprio governo reconhece que as medidas têm efeito limitado. A avaliação é que elas ajudam a amenizar a pressão sobre as empresas e a evitar repasses mais bruscos no curto prazo, mas não resolvem completamente o problema estrutural, já que o preço das passagens segue fortemente dependente de fatores externos, como o petróleo e o câmbio.

Cenário futuro

Thaunahy explica que o cenário mais provável é de pressão no curto prazo e volatilidade nos meses seguintes. “Os dados mais recentes indicam que o impacto do aumento do combustível ainda está sendo repassado gradualmente para os preços, e esse efeito tende a continuar ao longo dos próximos meses, afetando a inflação”, disse.

Para ele, o comportamento futuro depende de variáveis externas, principalmente preço do petróleo, estabilidade geopolítica e câmbio.

Condições para estabilização

O professor ressalta que para que as passagens aéreas voltem a níveis mais equilibrados, é necessário um conjunto de ajustes, principalmente externos ao próprio setor.

“O principal fator é a queda ou estabilização do preço do petróleo, já que ele influencia diretamente o custo do combustível. Sem isso, qualquer alívio tende a ser limitado. Além disso, algumas medidas já estão sendo discutidas ou implementadas. Essas ações têm como objetivo reduzir a pressão de curto prazo e evitar que todo o aumento seja transferido imediatamente ao consumidor”.

Ele afirmou que o aumento da oferta de voos também ajuda a equilibrar preços, mas isso depende da melhora nas condições de custo. Para ele, esse episódio mostra como setores intensivos em insumos globais, como petróleo, são sensíveis a eventos externos, e como isso pode rapidamente chegar ao bolso das pessoas.

Com informações de Metrópoles

Artigo anteriorNinguém acerta as seis dezenas da Mega-Sena 2.995; prêmio acumula para R$ 45 milhões
Próximo artigoDaniel Vorcaro acelera delação premiada pressionado por ação no STF