
Trump alardeia que vai “ter a honra” de ocupar Cuba. E o mundo assiste impassível a mais essa façanhuda truculência bélica do imperialismo norte-americano. O pior é que existe “gente” aplaudindo tamanha estupidez. Parece que o princípio da autodeterminação dos povos foi banido do direito internacional e que aos Estados Unidos foi conferido o direito-poder de decidir como se devem organizar as sociedades no planeta.
“Cuba é uma ditadura” é o ridículo argumento mais usado pelos tresloucados apoiadores da hegemonia americana. Não é uma ditadura. E, ainda que fosse, é dever de todos respeitar as opções políticas feitas por cada nação. Aqui mesmo, no Brasil, vivemos mais de duas décadas sob o tacão da mais cruenta ditadura fascista. Milhares de compatriotas nossos foram presos, torturados e assassinados, num festival de atrocidades, cuja lembrança só faz enodoar nossa história. Sem embargo disso, a esquerda brasileira, contra a qual se voltava a fúria dos ditadores, nunca nem sequer imaginou pedir que louros marines e musculosos rambos invadissem nosso país para apear os militares do poder. Longe disso. Trilhamos ínvios caminhos, caminhamos com perseverança e dedicação, até o momento em que se romperam os grilhões e a normalidade da democracia burguesa foi restaurada.
Há, porém, coisa mais significativa. Que autoridade histórica e moral têm os Estados Unidos para se autoproclamarem guardiães da democracia? Vivem numa sociedade profundamente desigual, onde bilionários esbanjam fortunas em trivialidades, enquanto parte de seu povo amarga níveis impensáveis de miséria. Os assalariados não têm noção do que sejam direitos trabalhistas pela singela razão de que, endeusando a ideologia de mercado, lá os ricos colocam em prática literalmente o dito de que “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Os índices de criminalidade violenta alcançam níveis de fazer inveja a qualquer república de bananas.
Alguém já ouviu falar de algum presidente americano que não fosse milionário? Impossível, porque, lá, a chamada alternância de poder não passa de uma farsa deslavada. Criticam Cuba pelo partido único. Mas, qual é a diferença entre o Partido Republicano e o Partido Democrata, que governam os Estados Unidos há séculos? Nenhuma. São ambos partidos de direita, sendo certo dizer que o mais liberal de seus próceres não conseguiria inscrição nem no nosso extinto PFL. Têm-se daí que Trump e Bush são farinha do mesmo saco em que mourejam Clinton e Obama.
Não é exagero dizer que os Estados Unidos não podem (e não querem) sobreviver sem guerras. Afinal de contas é a indústria bélica que lhes sustenta a economia, de tal sorte que, se não tiverem para onde mandar jovens americanos com a missão de matar e morrer, entrarão em colapso definitivo. É esse, então, o país que pretende dar lições de democracia? É esse o país que pretende ensinar ao mundo o que sejam paz e liberdade? Se for, estamos todos no mato sem cachorro porque ter os Estados Unidos como exemplo equivale a achar que o conde Drácula vai administrar com imparcialidade um hospital de sangue.
Três vezes estive na ilha caribenha. Na primeira, ainda existia a União Soviética que, por solidariedade, conseguia amenizar a insensatez do embargo econômico imposto pelo império do norte. Depois, nas outras vezes, vi as dificuldades se avolumarem, castigando desumanamente um povo que jamais agrediu outras nações e cujo ideal é simplesmente viver a seu próprio modo. Em nada essa violência política de longo prazo afetou a hospitalidade e gentileza da gente cubana. A fraternidade que dela emana deveria ser universal. Os princípios plantados por Fidel e Che ainda se refletem na ausência total de analfabetismo e nos cuidados com a saúde. “Cuba libre” não é só o nome de um drinque. É a expressão de um povo que, saindo da condição de quintal erótico e lúdico dos Estados Unidos, conseguiu construir sua própria história.
No momento em que esse povo está sob a ameaça de ser esmagado e pisoteado pelos delírios fascistas de Trump, vêm-me à lembrança a genialidade do imortal Pablo Neruda. Bom seria que a humanidade ouvisse e pusesse em prática a advertência do poeta chileno: “Abrid los ojos, pueblos ofendidos: en todas partes hay Sierra Maestra”.






