Reprodução/Agênica Senado

A Polícia Federal (PF) identificou uma suposta compra de R$ 1,7 milhão em gado realizada por Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), investigado por envolvimento em um esquema de descontos associativos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A informação consta em relatório encaminhado nesta terça-feira (15) ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator da Operação Sem Desconto.

Ao todo, a Polícia Federal indiciou 48 pessoas no primeiro inquérito da operação pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção.

Conversas apontam compra milionária

Segundo a investigação, mensagens encontradas no celular do empresário Higor Dalle Vedove Lourenção, um dos investigados, indicam que Carlos Lopes teria emitido um cheque de R$ 1,7 milhão para a compra de um lote de gado.

As conversas também mencionam outros pagamentos de R$ 40 mil destinados à aquisição de animais.

De acordo com a PF, um interlocutor identificado como Cícero demonstrava preocupação com a compensação do cheque, temendo que os recursos deixassem de ser liberados antes da conclusão da operação financeira.

Os investigadores apontam que Cícero seria o operador financeiro do grupo ligado à Conafer, responsável por movimentar recursos utilizados na compra de gado e material genético de alto valor.

Empresas de fachada

A investigação identificou um grupo de mensagens denominado “GADO COMPROVANTES”, que reunia comprovantes de transferências bancárias efetuadas por empresas consideradas de fachada pela Polícia Federal.

Segundo o relatório, os recursos utilizados nas aquisições não saíam diretamente das contas pessoais de Carlos Lopes nem da empresa agropecuária vinculada a ele, mas eram movimentados por empresas utilizadas para ocultar a origem do dinheiro.

Entre agosto e setembro de 2023, essas empresas transferiram R$ 1.173.060 para Elisvaldo Vilanova de Menezes, valor que, segundo a PF, foi utilizado para a compra de lotes de gado destinados a Carlos.

Já em novembro de 2024, outros R$ 675 mil foram pagos ao fornecedor identificado como Celso Gado pela aquisição de mais 30 animais.

Fazendas e patrimônio

Ainda conforme a investigação, Carlos Roberto Ferreira Lopes, sua esposa Bruna Braz de Souza Santos e o cunhado Vinicius Ramos da Cruz teriam utilizado recursos do esquema para adquirir fazendas, veículos de luxo e grandes rebanhos por meio da empresa Agropecuária e Mineração Lagoa Alta Ltda.

Segundo a PF, a estrutura empresarial teria sido utilizada para ocultar recursos obtidos de forma ilícita.

As propriedades investigadas estão localizadas nos municípios mineiros de Nova Módica, Itambacuri e Jequitinhonha.

Durante a operação, foram apreendidos 1.487 bovinos, 33 equinos e muares, além de caminhões, carretas, uma caminhonete, equipamentos agrícolas e documentos relacionados às fazendas.

Por decisão judicial, os animais permaneceram nas propriedades sob responsabilidade de depositários nomeados pela Justiça.

Esquema movimentou R$ 708 milhões

A Polícia Federal estima que o grupo investigado tenha movimentado pelo menos R$ 708 milhões entre 2019 e 2024.

Segundo o relatório, parte dos recursos teria sido destinada à compra de fazendas, veículos, rebanhos e outros bens de alto valor como forma de ocultar a origem do dinheiro.

A investigação identificou ainda dois núcleos financeiros responsáveis pela movimentação dos recursos. Um deles seria comandado por Cícero Marcelino de Souza Santos e Ingrid Pikinskeni Morais, cujas empresas teriam recebido mais de R$ 312 milhões da Conafer.

Outro núcleo envolveria Samuel Chrisóstomo do Bomfim Júnior e Lucineide dos Santos Oliveira, apontados como responsáveis por empresas utilizadas na ocultação patrimonial.

Próximos passos

Carlos Roberto Ferreira Lopes foi indiciado pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro qualificada e reiterada e corrupção ativa majorada. Segundo a Polícia Federal, ele é considerado foragido.

Também foram indiciados ex-dirigentes do INSS e outros investigados ligados ao esquema.

O relatório será analisado pelo ministro André Mendonça, que deverá encaminhá-lo à Procuradoria-Geral da República (PGR). Caberá ao órgão decidir se apresentará denúncia formal contra os investigados.

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