O presidente dos EUA, Donald Trump, aponta o dedo durante uma reunião de gabinete na Sala do Gabinete da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, em 27 de maio de 2026 — Foto: REUTERS/Evan Vucci

A possibilidade de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas voltou ao centro do debate político e diplomático após movimentações recentes envolvendo autoridades brasileiras e norte-americanas.

Segundo interlocutores do governo federal, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve em Washington semanas antes e tentou evitar um cenário desse tipo. A discussão ganhou força após pedidos de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para que os Estados Unidos adotem em relação às facções brasileiras uma postura semelhante à utilizada contra cartéis mexicanos.

Especialistas ouvidos por diferentes veículos destacam que PCC e Comando Vermelho são tradicionalmente classificados como organizações criminosas, uma vez que atuam com objetivos econômicos e não possuem motivação ideológica, característica normalmente associada ao terrorismo. Ainda assim, Trump já demonstrou disposição para ampliar esse conceito em outros países da América Latina.

Caso a classificação seja adotada, os Estados Unidos poderiam recorrer a instrumentos jurídicos, financeiros e diplomáticos para ampliar sua atuação sobre organizações ligadas ao crime organizado. Analistas afirmam que apenas a possibilidade dessa mudança já seria capaz de gerar incertezas econômicas e políticas.

Sanções financeiras e impactos econômicos estão entre as principais preocupações

Entre os mecanismos que poderiam ser utilizados pelo governo americano estão a Lei RICO (Racketeer Influenced and Corrupt Organizations Act) e a Kingpin Act (Foreign Narcotics Kingpin Designation Act).

A Lei RICO foi criada para combater organizações criminosas estruturadas e permite processar grupos envolvidos em atividades como lavagem de dinheiro, corrupção, extorsão e tráfico de drogas. Já a Kingpin Act é voltada especificamente ao combate ao narcotráfico internacional, autorizando o bloqueio de bens, transações financeiras e acesso ao sistema bancário dos Estados Unidos.

Embora ambas exijam investigações formais e revisão judicial para aplicação de sanções, a eventual classificação das facções como grupos terroristas ampliaria significativamente o alcance das medidas disponíveis às autoridades americanas, por envolver questões de segurança nacional.

Especialistas apontam que instituições financeiras brasileiras poderiam enfrentar dificuldades caso fossem identificadas conexões indiretas com operações relacionadas ao crime organizado. Empresas e cidadãos também poderiam ser afetados por restrições financeiras, mesmo sem participação direta em atividades ilícitas.

Outra preocupação envolve a cooperação internacional no combate ao crime. Segundo analistas, divergências sobre a natureza das facções poderiam dificultar a colaboração entre autoridades brasileiras e órgãos americanos, especialmente em investigações transnacionais.

Apesar dessas possibilidades, estudiosos consideram improvável que os Estados Unidos adotem medidas de grande impacto contra o Brasil. O principal argumento é o elevado grau de integração econômica entre os dois países, com centenas de empresas operando em cadeias produtivas compartilhadas.

Para especialistas em relações internacionais, ações mais severas poderiam gerar prejuízos não apenas ao Brasil, mas também à economia americana. Eles lembram que medidas semelhantes adotadas em outros países tiveram motivações políticas e eleitorais específicas, muitas vezes ligadas a comunidades de imigrantes com forte influência nos Estados Unidos.

Nesse contexto, a avaliação predominante é que eventuais iniciativas relacionadas ao PCC e ao Comando Vermelho tendem a ter maior valor simbólico e político do que consequências práticas imediatas para as relações entre Brasil e Estados Unidos.

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